quinta-feira

EXCELENTE - IVAN KLIMA

Ivan Klima
 AMOR E LIXO e NEM SANTOS NEM ANJOS - DOIS LIVROS IMPERDÍVEIS.
Nascido em Praga, em 1931, e criado como protestante, Ivan Klíma descobriu que era judeu somente quando os nazistas invadiram a antiga Tchecoslováquia durante a Segunda Guerra Mundial e aprisionaram sua família em um campo de concentração por quase quatro anos. Formado em Letras, foi editor de um jornal de prestígio, mas seu texto, considerado radical e dissidente em 1969, fez com que ele perdesse o emprego e sua obra fosse proibida por vinte anos no seu país. Em 2002, recebeu o Prêmio Literário Franz Kafka, oferecido anualmente pela República Tcheca ao escritor considerado o melhor em todo o mundo. Traduzido para 29 línguas,
Ivan Klíma vive em Praga.

sexta-feira

"NÃO EXISTE UM CAMINHO PARA A PAZ. A PAZ É O CAMINHO"
                                                            Mahatma Gandhi

quarta-feira

OLHOS MORTOS DE SONO - Anton Paolovitch Tchekhov

               É noite. A babá Varka, de uns treze anos, embala o berço da criança e vai ronronando, quase imperceptivelmente: 
               Báiu-báiuchki-baiú, Vou cantar-te uma canção...
           Arde, em frente da imagem, um candeeiro verde. Estende-se, através do quarto, de um canto a outro acorda com cueiros e um enorme par de calças negras. O candeeiro projeta no teto uma grande mancha verde, enquanto os cueiros e as calças lançam sombras compridas sobre o fogão, sobre o berço e sobre Varka... 
                Quando a luz começa a bruxulear, a mancha e as  sombras animam-se e põem-se em movimento, como tangidas pelo vento. Falta ar. Cheira a sopra de repolho e couro de botas. A criança chora. Seu pranto há muito já se tornou rouco e cansado, mas continua gritando e não se sabe quando vai parar. Mas Varka está com sono. Seus olhos grudam, a cabeça pende, dói-lhe o pescoço. Não consegue mover as pálpebras, nem oslábios, e tem a impressão de que seu rosto secou e lenhificou-se, que a cabeça ficou pequena como uma cabeça de alfinete.
                  - Báiu-báiuchki-báiu, - ronrona - vou fazer-te um
mingauzinho...Um grilo ruída no fogão. Atrás da porta, no quarto vizinho, roncam o patrão e o aprendiz Afanássi... O berço range, comose fora um lamento, Varka vai ronronando - e tudo isto funde-se num canto soturno, acalentador, que é tão doce ouvir, quando se vai para a cama. Agora, porém, esse canto apenas irrita e constrange, porque traz um entorpecimento, e dormir é impossível. Se isso, Deus não o permita acontecer, os patrões vão moê-la de pancada.
               Bruxuleia o candeeiro. A mancha verde e as sombras põem-se em movimento, entram pelos olhos entrecerrados, imóveis, de Varka, confundem-se, em seu cérebro meio adormecido, em imagens nebulosas. Ela vê nuvens escuras, que se perseguem pelo céu, gritando como aquela criança. Mas eis que soprou o vento, sumiram as nuvens, e Varka vê uma estrada larga de macadame, coberta de lama quase líquida. Sobre aquela estrada, carroças deslocam-se devagar em fila, arrastam-se homens de alforje ao ombro e perpassam sombras estranhas. 
                   De ambos os lados, vê-se uma floresta, através do nevoeiro gélido. De repente, os homens de alforje e as sombras caem por terra, na lama semilíquida. "Para que isso?", pergunta Varka. "Dormir, dormir!", respondem-lhe. 
                    E eles adormecem profunda e docemente. Pegas e corvos estão pousados sobre os fios
telegráficos, gritam como a criança e procuram acordar os homens.
                    - Báiu-báiuchki-baiú, vou cantar-te uma canção... - ronrona
                    Varka e já se vê em certa isbá escura, abafada.
                    Revolve-se no chão o seu falecido pai, Iefim Stiepanov. Ela não o vê, mas ouve como rola de dor e geme. Como diz o doente, a hérnia "tomou conta dele".A dor é tão forte que ele não pode, agora, dizer palavra e comente sorve o ar e bate os dentes como se bate num tambor:
                     - Bu-bu-bu...
                     Mãe Pielaguéia correu à casa senhorial, para avisar os patrões de que Iefim estava morrendo. Já saiu há muito e está demorando demais. Varka fica deitada sobre o fogão, sem dormir, prestando atenção àquele "bu-bu-bu". Mas, eis que se ouve um carro chegar à isbá. Os patrões enviaram para ver o doente um médico jovem, hóspede deles. O médico entra na isbá.
                     Não se consegue vê-lo no escuro, mas ouve-se como tosse e faz barulho com a fechadura.
                      - Acendam a luz - diz ele.
                      - Bu-bu-bu... - responde Iefim.
                 Pielaguéia corre para o fogão, à procura dos fósforos. Depois de um minuto de silêncio, o médico encontra um no bolso e o acende.
                    - Nesse instante, paizinho, nesse mesmo instante - diz Pielaguéia e corre para fora, um pouco depois, e volta com um toco de vela. Iefim está com as faces coradas, brilham-lhe os olhos, e o olhar parece estranhamente penetrante, como se pudesse ver através do médico e das paredes.
                    - E então? O que foi que você inventou? - pergunta-lhe o médico, inclinando-se sobre ele. 
                    - O quê! Faz muito tempo que tem isso?
                    - Como? Chegou a hora da morre, Vossa Nobreza... Vou deixar o mundo dos vivos...
                    - Chega de bobagem... Vamos curá-lo!
                  - Seja como quiser, Vossa Nobreza, agradecemos humildemente, mas a gente compreende... Se já chegou a hora da morte, que se vai fazer?
                     O médico passa um quarto de hora lidando com Iefim, depois se
levanta e diz:
                  - Não posso fazer mais nada... Você deve ir para o hospital,eles vão te operar lá. Vá agora mesmo... Se, falta! Já é um pouco tarde, no hospital estão todos dormindo, mas não faz
mal, vou dar a você um bilhetinho. Está ouvindo?
                     - Mas, como é que ele pode ir, paizinho?- diz Pielaguéia. 
                     -Não temos cavalo.
                     - Não faz mal, falarei com os patrões, eles vão emprestar um.
                     O médico sai, apaga-se a vela e escuta-se novamente: "bu-bu-bu..."
                     Depois de meia hora, ouve-se chegar à isbá uma telega pequena, enviada pelos patrões, Iefim apronta-se e vai... Mas, eis que chega uma clara, luminosa manhã. Pielaguéia foi ao hospital para se informar sobre Iefim. Uma criança chora e Varka ouve alguém cantar, com a sua voz:
                    - Báiu-báiuchki-baiú, vou cantar-te uma canção...
                    Volta Pielaguéia, persigna-se e murmura:
                   - De noite, eles o operaram e. de manhãzinha, entregou a alma a Deus... Que esteja em paz, lá no céu... Dizem que o levamos  para lá muito tarde...
                    Varka vai para o mato e chora lá. Mas, eis que alguém lhe bateu na nuca, com tanta força que sua testa choca-se contra uma bétula. Eergue os olhos e vê. Diante de si, o patrão sapateiro.
                     - Que está fazendo, porca? A criança chora e você está dormindo.
                    Puxa-lhe a orelha com força. Ela sacode a cabeça e torna a balançar o berço e a ronronar sua canção. A mancha verde e as sombras das calças e dos cueiros balançam-se, piscam-lhe e, pouco depois, dominam-lhe novamente o cérebro. Vê mais uma vez a estrada de macadame, coberta de lama semilíquida. Os homens de alforje às costas e as sombras estão estirados e dormem profundamente. Vendo-os, Varka sente uma vontade louca de dormir, dormir com toda a alma; mãe Pielaguéia, porém, caminha a seu lado, apressando-a. Vão à cidade pedir emprego.
                  -Uma esmolinha, pelo amor de Deus! - implora a mãe aos transeuntes. - Por caridade, meus bons senhores!
                  - Me dá a criança! -responde-lhe uma voz conhecida. - Me dá a criança! - repete a mesma voz, mas agora já abruptamente, com rancor. 
                      - Está dormindo, animal?
                     Varka levanta-se de um salto e, olhando em redor, compreende o que sucedeu: não hás mais estrada, nem Pielaguéia, nem gente, mas, no meio do quarto, está a patroa, que veio amamentar a criança. Enquanto a patroa gorda, de ombros largos, alimenta a acalma a criança, Varka olha-a de pé, esperando que acabe.
                     Além das janelas, o ar já está se tornando azul, empalidecem as sombras e a mancha verde no reto. Não demora a manhã.
                     - Toma! - diz a patroa, abotoando a camisola sobre o peito. 
                     -Está chorando. Deve ser mau-olhado.
                Varka apanha a criança, deita-a no berço e recomeça a embalá-la. A mancha verde e as sombras desaparecem pouco a pouco e já não há ninguém que se esgueire para dentro de sua cabeça e enevoe-lhe o cérebro. Mas não passou o sono, um sono terrível! Varka deitas a cabeça na beirada do berço e balança-se com todo o corpo, a fim de dominar este sono, mas, apesar de tudo, seus olhos estão grudados e pesa-lhe a cabeça.
                     - Varka, vai acender o fogão! - ressoa a voz do patrão, atrás
da porta.
                   Quer dizer que já é tempo de se levantar e começar o trabalho. Varka deixa o berço e corre a buscar lenha no depósito. Está contente. Quando se anda ou corre, não se tem tanto sono. Traz lenha, acende o fogão e sente voltar a si o rosto lenhificado  aclararem-se as idéias.
                   - Varka, vai pôr o samovar! - grita a patroa,.
                 Varka pica a lenha em gravetos, mas apenas tem tempo de acendê-los e enfiá-los no samovar, já se ouve nova ordem:
                 - Varka, limpa as galochas do patrão!
              Senta-se no chão, limpa as galochas e pensa em como seria bom enfiar a cabeça numa galocha grande e funda e cochilar um pouco... De repente, a galocha cresce, fica inchada, enche todo o quarto. Varka deixa cair a escova, mas, no mesmo instante, sacode a cabeça, arregala os olhos, procura fazer com que os objetos não cresçam e não se movam em seus olhos.
                 - Varka, vai lavar a escada lá fora, que até dá vergonha perante os fregueses.
              Varka lava a escada, arruma os quartos, depois acende outro fogão e corre à venda. Hás muito serviço, não sobra um  instante de lazer. Mas, não há nada tão difícil como ficar parada, diante da mesa da cozinha, e descascar batata. A cabeça tende a pender sobre a mesa, a batata parece saltitar-lhe nos olhos, a faca tomba-lhe da mão. Ao lado dela, vai andando de um lado para outro a patroa gorda e zangada, de mangas arregaçadas, e fala tão alto que sua voz reboa no ouvido. É outra tortura servir à mesa, um inferno lavar roupa, costurar. Há momentos em que se tem vontade de não ligar a coisa alguma, arremessar-se ao chão e dormir.
              Passa o dia. Vendo a escuridão chegar às janelas, Varka aperta com as mãos as têmporas, que tendem a lenhificar-se e sorri, sem saber por quê. A treva acaricia-lhe os olhos que grudam e promete-lhe um sono forte, para daqui a pouco. De noite, chegam visitas.
               - Varka, vai pôr o samovar! - grita a patroa.
              O samovar é pequeno e, antes que as visitas se dêem por satisfeitas, torna-se necessário esquentá-lo umas cinco vezes.
               Depois do chá, Varka passa uma hora inteira, parada, olhando as visitas e esperando ordens.
               - Varka, corre para comprar três garrafas de cerveja!
                Levanta-se de um salto e procura correr o mais depressa possível, para enxotar o sono.
               - Varka, vai buscar vodca! Varka, onde está o saca-rolhas?
               - Varka., limpa os arenques!
               - Mas, eis que as visitas se foram, finalmente. Apagam-se as luzes, os patrões vão dormir.
               - Varka, embala a criança! - ressoa a ordem derradeira. Um, grilo trila no fogão. A mancha verde no teto e as sombras das calças e dos cueiros esgueiram-se novamente para os olhos entrecerrados de Varka, bruxuleiam e enevoam-lhe a cabeça.
              - Báiu.báiuchki-baiú - ronrona - vou cantar-te uma canção...
              Mas a criança grita, extenua-se de tanto berrar. Varka vê novamente o macadame lamacento, os homens de alforje às costas, Pielaguéia, pai Iefim. Compreende tudo, reconhece a todos, mas, através da modorra, somente não consegue compreender aquela força que lhe amarra pés e mãos, que a
esmaga e impede-lhe a vida. 
      Olha ao redor, procura aquela força, para se livrar dela, mas não a encontra.                                                                      Por fim, extenuada, concentra todas as energias e todo o seu olhar,espia para cia, para a mancha verde que bruxuleia e, prestandoatenção aos gritos, encontra o inimigo que a impede de viver.
               O inimigo é a criança.Ri. Acha estranho que, até então, não tenha compreendido uma coisa tão simples. A mancha verde, as sombras e o grilo parecem rir igualmente, surpreendidos.
                 A idéia absurda toma conta de Varka. Ergue-se do tamborete e passeia pelo quarto, sem piscar, um sorriso largo no rosto. Está contente e excitada com a idéia de que, dentro de um instante, vai livrar-se da criança, que a deixa amarrada de pés e mãos... Matar a criança e, depois, dormir, dormir, dormir...
                Rindo, pestanejando e ameaçando a mancha verde com os dedos, Varka aproxima-se cautelosa do berço e inclina-se sobre a criança. Depois de estrangulá-la, deita-se rapidamente no chão, ri de alegria porque já pode dormir e, um instante depois, dorme profundamente, como se estivesse morta...       

terça-feira

SONHOS

   Tenho um sonho recorrente que é de que estou voando. Voo de várias maneiras. Flutuando, sendo carregada por correntes de ar (sentada como numa cadeira) e ultimamente como uma galinha, batendo os braços, como desajeitadas asas.
   Alguém entende de sonhos e sabe o que significa????
   São sempre bons e estou sempre muito contente.

ENTUSIASMO

Recebi de uma amiga e resolvi guardar. Acho que é de sua autoria: Maria Celia Bezerra de Menezes.

     A palavra entusiasmo vem do grego e significa "ter um deus dentro de si". Os gregos eram politeístas, isto é, acreditavam em vários deuses.
  A pessoa entusiasmada era aquela "preenchida" por um dos deuses e por isso poderia transformar a natureza e fazer as coisas acontecerem.
  Assim, se você fosse entusiasmada por Deméter (deusa da Agricultura, chamada Ceres na mitologia romana), você seria capaz de fazer acontecer a melhor colheita, e assim por diante.
  Segundo os gregos, só as pessoas entusiasmadas eram capazes de vencer os desafios do cotidiano, criar uma realidade ou modificá-la.
  Portanto, era preciso entusiasmar-se, ou seja, "abrigar um deus em si"!
  Por isso, as pessoas entusiasmadas acreditam em si, agem com serenidade, alegria e firmeza. E acreditam igualmente nos outros entusiasmados. Não é o sucesso que traz o entusiasmo, é o entusiasmo que traz o sucesso.
  O entusiasmo é bem diferente do otimismo.
  Otimismo significa esperar que uma coisa dê certo.
  Entusiasmo é acreditar que é possível fazer dar certo...

segunda-feira

O tempo e as jabuticabas - de Rubem Alves

foto Jotamarketing


 "Contei meus anos e descobri que terei menos tempo para viver daqui para frente do que já vivi até agora.
Sinto-me como aquela menina que ganhou uma bacia de jabuticabas. As primeiras, ela chupou displicente, mas percebendo que faltam poucas, rói o caroço.
Já não tenho tempo para lidar com mediocridades. Não quero estar em reuniões onde desfilam egos inflados.
Não tolero gabolices. Inquieto-me com invejosos tentando destruir quem eles admiram, cobiçando seus lugares, talentos e sorte.

Já não tenho tempo para projetos megalomaníacos. Não participarei de conferências que estabelecem prazos fixos para reverter a miséria do mundo.
Não quero que me convidem para eventos de um fim de semana com a proposta de abalar o milênio.

Já não tenho tempo para reuniões intermináveis para discutir estatutos, normas, procedimentos e regimentos internos.
Já não tenho tempo para administrar melindres de pessoas, que apesar da idade cronológica, são imaturos.

Não quero ver os ponteiros do relógio avançando em reuniões de 'confrontação', onde 'tiramos fatos a limpo'.
Detesto fazer acareação de desafetos que brigaram pelo majestoso cargo de secretário geral do coral.

Lembrei-me agora de Mário de Andrade que afirmou: 'as pessoas não debatem conteúdos, apenas os rótulos'.
Meu tempo tornou-se escasso para debater rótulos, quero a essência, minha alma tem pressa...
Sem muitas jabuticabas na bacia, quero viver ao lado de gente humana, muito humana; que sabe rir de seus tropeços, não se encanta com triunfos, não se considera eleita antes da hora, não foge de sua mortalidade, defende a dignidade dos marginalizados, e deseja tão somente andar ao lado do que é justo.

Caminhar perto de coisas e pessoas de verdade, desfrutar desse amor absolutamente sem fraudes, nunca será perda de tempo.

O essencial faz a vida valer a pena."

sexta-feira

RECEITA DE ANO NOVO - de Carlos Drummond de Andrade


Para você ganhar belíssimo Ano Novo 
cor do arco-íris, ou da cor da sua paz, 
Ano Novo sem comparação com todo o tempo já vivido 
(mal vivido talvez ou sem sentido) 
para você ganhar um ano 
não apenas pintado de novo, remendado às carreiras, 
mas novo nas sementinhas do vir-a-ser; 
novo até no coração das coisas menos percebidas 
(a começar pelo seu interior) 
novo, espontâneo, que de tão perfeito nem se nota, 
mas com ele se come, se passeia, 
se ama, se compreende, se trabalha, 
você não precisa beber champanha ou qualquer outra birita, 
não precisa expedir nem receber mensagens 
(planta recebe mensagens? 
passa telegramas?) 

Não precisa fazer lista de boas intenções 
para arquivá-las na gaveta. 
Não precisa chorar arrependido 
pelas besteiras consumadas 
nem parvamente acreditar 
que por decreto de esperança 
a partir de janeiro as coisas mudem 
e seja tudo claridade, recompensa, 
justiça entre os homens e as nações, 
liberdade com cheiro e gosto de pão matinal, 
direitos respeitados, começando 
pelo direito augusto de viver. 

Para ganhar um Ano Novo
que mereça este nome,
você, meu caro, tem de merecê-lo,
tem de fazê-lo novo, eu sei que não é fácil,
mas tente, experimente, consciente.
É dentro de você que o Ano Novo
cochila e espera desde sempre.

quarta-feira

Para refletir:

Há coisas no fundo da mala,
que a  gente nem sabe
para o que é que vai servir.

Há  malas que  a gente  carrega
sem saber para onde ir,
mas mesmo assim se  carrega.

Sozinha,
A  mala não pode ir.

sábado

A VIDA E O TEMPO

(Mario Quintana)

 
A vida é um dever que nós trouxemos para fazer em casa.
Quando se vê, já são seis horas!
Quando se vê, já é sexta-feira ...
Quando se vê, já terminou o ano ...
Quando se vê, perdemos o amor de nossa vida.
Quando se vê, passaram-se cinqüenta anos!
Agora é tarde demais para ser reprovado.


Se me fosse dado, um dia, outra oportunidade,
eu nem olhava o relógio.
Seguiria sempre em frente e iria jogando fora pelo caminho,
a casca dourada e inútil das horas


Desta forma, eu digo:
Não deixe de fazer algo que gosta, devido à falta de tempo,
Pois a única falta que terá,
Será desse tempo
Que infelizmente não voltará mais.

domingo

REFLEXÃO

"Los años arrugan la piel pero perder el entusiamo arruga el alma"
 Albert Schweitzer

CONSELHOS DE MEVLANA

Posted by Picasa

sexta-feira

Confraria dos poetas de Jaguarão: Fotos Show "Da mesma raíz"

Confraria dos poetas de Jaguarão: Fotos Show "Da mesma raíz": "Show na Casa de Cultura Mário Quintana em Porto Alegre Apresentação na I Pedra da Palavra - Jaguarão"

Confraria dos poetas de Jaguarão: Marco Aurélio Vasconcellos - Canto dos Pássaros

Confraria dos poetas de Jaguarão: Marco Aurélio Vasconcellos - Canto dos Pássaros: "Há cantores que estão além de regionalismos, tradições, movimentos, estilos. Vozes que entram em sintonia com a nossa alma. Manifestações d..."

quinta-feira

I N O V A R


Provar

do inusitado.


Mudar

o foco do olhar.



Virar

o dia do avesso.



Saltar

o abismo perfeito.

segunda-feira

AINDA SOBRE SARAMAGO - Trecho do discurso ao receber o Prêmio Nobel.

     "O homem mais sábio que conheci em toda a minha vida não sabia ler nem escrever. As quatro da madrugada, quando a promessa de um novo dia ainda vinha em terras de França, levantava-se da enxerga e saía para o campo, levando ao pasto a meia dúzia de porcas de cuja fertilidade se alimentavam ele e a mulher. Viviam desta escassez os meus avós maternos, da pequena criação de porcos que, depois do desmame, eram vendidos aos vizinhos da aldeia. Azinhaga de seu nome, na província do Ribatejo.
     Chamavam-se Jerónimo Melrinho e Josefa Caixinha esses avós, e eram analfabetos um e outro. No Inverno, quando o frio da noite apertava ao ponto de a água dos cântaros gelar dentro da casa, iam buscar às pocilgas os bácoros mais débeis e levavam-nos para a sua cama. Debaixo das mantas grosseiras, o calor dos humanos livrava os animaizinhos do enregelamento e salvava-os de uma morte certa. Ainda que fossem gente de bom caráter, não era por primores de alma compassiva que os dois velhos assim procediam: o que os preocupava, sem sentimentalismos nem retóricas, era proteger o seu ganha-pão, com a naturalidade de quem, para manter a vida, não aprendeu a pensar mais do que o indispensável.
     Ajudei muitas vezes este meu avô Jerónimo nas suas andanças de pastor, cavei muitas vezes a terra do quintal anexo à casa e cortei lenha para o lume, muitas vezes, dando voltas e voltas à grande roda de ferro que acionava a bomba, fiz subir a água do poço comunitário e a transportei ao ombro, muitas vezes, às escondidas dos guardas das searas, fui com a minha avó, também pela madrugada, munidos de ancinho, panal e corda, a recolher nos restolhos a palha solta que depois haveria de servir para a cama do gado. E algumas vezes, em noites quentes de Verão, depois da ceia, meu avô me disse: "José, hoje vamos dormir os dois debaixo da figueira". Havia outras duas figueiras, mas aquela, certamente por ser a maior, por ser a mais antiga, por ser a de sempre, era, para toda as pessoas da casa, a figueira.
    Mais ou menos por antonomásia, palavra erudita que só muitos anos depois viria a conhecer e a saber o que significava... No meio da paz noturna, entre os ramos altos da árvore, uma estrela aparecia-me, e
depois, lentamente, escondia-se por trás de uma folha, e, olhando eu noutra direção, tal como um rio correndo em silêncio pelo céu côncavo, surgia a claridade opalescente da Via Láctea, o Caminho de Santiago, como ainda lhe chamávamos na aldeia.
     Enquanto o sono não chegava, a noite povoava-se com as histórias e os casos que o meu avô ia contando: lendas, aparições, assombros, episódios singulares, mortes antigas, zaragatas de pau e pedra, palavras de antepassados, um incansável rumor de memórias que me mantinha desperto, ao mesmo tempo que suavemente me acalentava. Nunca pude saber se ele se calava quando se apercebia de que eu tinha adormecido, ou se continuava a falar para não deixar em meio a resposta à pergunta que invariavelmente lhe fazia nas pausas mais demoradas que ele calculadamente metia no relato: "E depois?". Talvez repetisse as histórias para si próprio, quer fosse para não as esquecer, quer fosse para as enriquecer com peripécias novas.
     Naquela idade minha e naquele tempo de nós todos, nem será preciso dizer que eu imaginava que o meu avô Jerónimo era senhor de toda a ciência do mundo. Quando, à primeira luz da manhã, o canto dos pássaros me despertava, ele já não estava ali, tinha saído para o campo com os seus animais, deixando-me a dormir. Então levantava-me, dobrava a manta e, descalço (na aldeia andei sempre descalço até aos 14 anos), ainda com palhas agarradas ao cabelo, passava da parte cultivada do quintal para a outra onde se encontravam as pocilgas, ao lado da casa. Minha avó, já a pé antes do meu avô, punha-me na frente uma grande tigela de café com pedaços de pão e perguntava-me se tinha dormido bem. Se eu lhe contava algum mau sonho nascido das histórias do avô, ela sempre me tranqüilizava: "Não faças caso, em sonhos não há firmeza".
    Pensava então que a minha avó, embora fosse também uma mulher muito sábia, não alcançava as alturas do meu avô, esse que, deitado debaixo da figueira, tendo ao lado o neto José, era capaz de pôr o universo em movimento apenas com duas palavras. Foi só muitos anos depois, quando o meu avô já se tinha ido deste mundo e eu era um homem feito, que vim a compreender que a avó, afinal, também acreditava em sonhos.
  Outra coisa não poderia significar que, estando ela sentada, uma noite, à porta da sua pobre casa, onde então vivia sozinha, a olhar as estrelas maiores e menores por cima da sua cabeça, tivesse dito estas palavras: "O mundo é tão bonito, e eu tenho tanta pena de morrer". Não disse medo de morrer, disse pena de morrer, como se a vida de pesado e contínuo trabalho que tinha sido a sua estivesse, naquele momento quase final, a receber a graça de uma suprema e derradeira despedida, a consolação da beleza revelada.
    Estava sentada à porta de uma casa como não creio que tenha havido alguma outra no mundo porque nela viveu gente capaz de dormir com porcos como se fossem os seus próprios filhos, gente que tinha pena de ir-se da vida só porque o mundo era bonito, gente, e este foi o meu avô Jerónimo, pastor e contador de histórias, que, ao pressentir que a morte o vinha buscar, foi despedir-se das árvores do seu quintal, uma por uma, abraçando-se a elas e chorando porque sabia que não as tornaria a ver."

domingo

Um pouco de SÁNDOR MÁRAI

Envelhecer
     Uma pessoa envelhece lentamente: primeiro envelhece o seu gosto pela vida e pelas pessoas, sabes, pouco a pouco torna-se tudo tão real, conhece o sginificado das coisas, tudo se repete tão terrível e fastidiosamente. Isso também é velhice. Quando já sabe que um corpo não é mais que um corpo. E um homem, coitado, não é mais que um homem, um ser mortal, faça o que fizer... Depois envelhece o seu corpo; nem tudo ao mesmo tempo, não, primeiro envelhecem os olhos, ou as pernas, o estômago, ou o coração. Uma pessoa envelhece assim, por partes. A seguir, de repente, começa a envelhecer a alma: porque por mais enfraquecido e decrépito que seja o corpo, a alma ainda está repleta de desejos e de recordações, busca e deleita-se, deseja o prazer. E quando acaba esse desejo de prazer, nada mais resta que as recordações, ou a vaidade; e então é que se envelhece de verdade, fatal e definitivamente. Um dia acordas e esfregas os olhos: já não sabes porque acordaste. O que o dia te traz, conheces tu com exactidão: a Primavera ou o Inverno, os cenários habituais, o tempo, a ordem da vida. Não pode acontecer nada de inesperado: não te surpreeende nem o imprevisto, nem o invulgar ou o horrível, porque conheces todas as probabilidades, tens tudo calculado, já não esperas nada, nem o bem, nem o mal... e isso é precisamente a velhice.

Sándor Márai, in 'As Velas Ardem Até ao Fim' (fonte: site Pensamentos e Reflexões)


O Desejo de Ser Diferente


     O desejo de se ser diferente daquilo que se é, é a maior tragédia com que o destino pode castigar o homem. O desejo de ser outro, diferente daquilo que somos: não pode arder um desejo mais doloroso no coração humano. Porque não é possível suportar a vida de outra maneira, apenas sabendo que nos conformamos com aquilo que significamos para nós próprios e para o mundo. Temos de nos conformar com aquilo que somos e de ter consciência, quando nos conformamos, de que em troca dessa sabedoria, não recebemos elogios da vida, não nos põem no peito nenhuma condecoração por sabermos e aceitarmos que somos vaidosos ou egoístas, carecas e barrigudos - não, temos de saber que por nada disso recebemos recompensas, nem louvores. Temos de suportar, o segredo é isso. Temos de suportar o nosso carácter, o nosso temperamento, já que os seus defeitos, egoísmos e avidez, não os mudam nem a experiência, nem a compreensão. Temos de suportar que os nossos desejos não tenham plena repercussão no mundo. Temos de suportar que as pessoas que amamos, não nos amem, ou que não nos amem como gostaríamos. Temos de suportar a traição e a infidelidade, e o que é mais difícil entre todas as tarefas humanas, temos de suportar a superioridade moral ou intelectual de uma outra pessoa.
Sándor Márai, in 'As Velas Ardem Até ao Fim' (fonte site Pensamentos e Reflexões)

LITERATURA HÚNGARA

     Aproveitando este tempo na Hungria, depois de tantas fotos,(estão todas no blog LUGARES) procuro descobrir algo sobre os escritores Húngaros editados no Brasil.
     Ano passado descobri Ágota Kristhof. Comprei seus livros ainda daqui, em sebos brasileiros e foi uma surpresa maravilhosa  lê-los, quando voltei ao Brasil. Até tenho postado aqui neste blog, nos meses de maio ou junho de 2009, não lembro bem, um pouco sobre esta maravilhosa escritora.
     Agora, descobri no blog  intitulado NÃO LEIA, assinado pelo escritor e professor baiano, Mayrant Gallo, uma verdadeira aula sobre escritores Húngaros. 
     Reproduzo aqui seu texto para quem se interessa em conhecer um pouco mais da literatura deste povo e, daqui mesmo, já encontrei e comprei nos sebos do Brasil algumas das obras citadas.
    Quando volto os livros já estarão lá em casa, a minha espera.

domingo, 3 de janeiro de 2010

OS HÚNGAROS



     "Sobre os escritores húngaros, um excelente livro é: Antologia do conto húngaro (4a. edição pela Topbooks, 1998), organizada pelo húngaro-brasileiro Paulo Rónai e com uma extensa e arguta introdução assinada por Guimarães Rosa.           
     Estão todos ali: Márai, Ady, Molnár, Krudy, Szép, Gelléri, Kostolányi e muitos outros. Há uma segunda antologia publicada pela EDUSP, em 1991, também organizada por Rónai e também maravilhosa: Contos húngaros.
     Novamente, Kostolányi, Molnár, Szép, Gelléri, Déry, entre outros.
      Procure ainda o volume com duas novelas de István Örkény, que nos deixam perplexos com sua atualidade: A exposição das rosas (Editora 34, 1993).
     Niki: a história de um cão, de Tibor Déry, saiu pela Veredas (2002) e faz uma poderosa crítica ao Comunismo.
     O companheiro de viagem, de Gyula Krudy, veio a público pela CosacNaify, em 2003.
   Roteiro do conto húngaro, organizado por Rónai, e claramente a base do volume Antologia do conto húngaro, é hoje uma raridade editorial, pois foi publicado em 1954, na coleção Os cadernos de Cultura, do MEC, e jamais reeditado.  Nesta obra, além dos contos, temos fotos de três ou quatro escritores, alguns dos mais célebres talvez.
     Há ainda: O tradutor cleptomaníaco, de Dezsö Kosztolányi, pela Editora 34, de 1996, que reúne alguns contos que o autor escreveu com seu alterego Kornél Esti; um livro realmente espetacular, de contos simples e profundos; já Os meninos da Rua Paulo, de Ferenc Molnár, recém-lançado pela CosacNaify, foi durante décadas um livro marcante para a formação do jovem brasileiro. Hoje, está meio esquecido.
     Também de Molnár, temos O poste a vapor (CosacNaify, 2005), uma novela que é uma verdadeira joia literária.
     Por fim, A tragédia do homem, de Imre Madách, peça mundialmente conhecida, foi traduzida por Paulo Rónai e publicada em 1980 pela Salamandra em coedição com a UERJ.   
     No campo da teoria, da história e crítica literárias, há poucas publicações respeitáveis, mas podemos citar:
     À sombra do quarto crescente, de Aleksandar Jovanovic, um passeio pelos temas literários e culturais dos países do Leste Europeu, entre os quais a Hungria, e, do próprio Paulo Rónai, Pois é: ensaios (Nova Fronteira, 1990) e Como aprendi português e outras aventuras (Artenova, 1975).
     Em ambos há vários ensaios sobre autores húngaros e aspectos de sua literatura e cultura. O último lançamento de autor húngaro no Brasil de que tive notícia (não sou muito de ler jornais e revistas, prefiro vagar nas livrarias e achar por mim mesmo os "melhores" autores e livros), além, é claro, das obras de Imre Kertész e Sandor Márai, regularmante publicadas por aqui há anos, foi O viajante e o mundo da lua (Ediouro, 2007), de Antal Szerb.
     Bem, era isso. Não é certamente tudo, mas é um caminho para esse pequeno país de grandes escritores que é a Hungria."



Postado por Mayrant Gallo às 10:44 AM

terça-feira

JOSE SARAMAGO - Saudade não tem remédio - Por Luiz Schwarcz

18 junho 2010, 11:17 am


foto google
     Acabo de ver o escritor José Saramago morto. Quando a notícia apareceu na internet, liguei pelo skype para Pilar, que sem que eu pedisse me mostrou José deitado na cama, morto. Tenho falado com Pilar quase todos os dias. Sabia que não havia chance de recuperação, o destino de José já estava traçado, os médicos não acreditavam mais na possibilidade de um novo milagre, como o do ano passado, quando venceu, contra todas as expectativas, os problemas pulmonares que o acometiam.
     Posso dizer que José Saramago era um grande amigo meu e da minha família. Quando vinha ao Brasil hospedava-se em minha casa, no quarto que foi da Júlia, minha filha. Ele detestava hotéis. Viu meus filhos crescerem. Fui conhecer sua casa em Lanzarote logo que se mudou com Pilar, abandonando Portugal.          
    Assisti emocionado a cerimônia do Nobel em Estocolmo — pouco antes, no hotel, aprovamos, Lili e eu, o vestido de Pilar para o evento. Estava em Frankfurt quando ele recebeu a notícia do prêmio; celebramos juntos.
    A obra de Saramago veio para a Companhia das Letras por acaso. No fim da feira de Frankfurt de 1987 (no segundo ano de vida da editora), ao me despedir de Ray-Gude Mertin, uma amiga pessoal e agente literária de muitos autores brasileiros, comentei que José era dos meus autores favoritos. Conversa à toa, de fim de feira. Não fazia ideia de que ela representava o escritor português, junto com a editora Caminho, e que estava para mudar Saramago de editora no Brasil. Atrasei minha partida e voltei, com a bagagem no porta-malas do táxi, para falar com Zeferino Coelho sobre a Companhia das Letras.
     Foi tudo muito rápido, Jangada de pedra foi o primeiro livro, lançado em abril de 1988 com a presença do autor no Brasil, junto com Pilar, jornalista que conhecera em 1986 e que mudou tanto a sua vida. A empatia foi imediata, apesar da minha gafe inicial —perguntei-lhe em plena praia de Copacabana se era verdade que, em Portugal, Psicose, de Hitchcock, fora intitulado O filho que era mãe, e Vertigo, A mulher que morreu duas vezes.
    Em seguida fui a Lisboa. Já éramos bem amigos, ele queria me mostrar o novo livro que escrevia. Em sua casa, na rua dos Ferreiros à Estrela, José leu trechos de A história do cerco de Lisboa, e me levou para jantar no seu restaurante favorito, o Farta Brutos. Pilar foi minha guia de Lisboa na ocasião, reservou o hotel num velho convento na rua das Janelas Verdes, e mostrou os locais que aparecem no meu livro favorito de Saramago, O ano da morte de Ricardo Reis. Comprei com Pilar o primeiro computador de José. Antes disso, ele datilografava três vezes cada livro para entregá-lo completamente limpo a seus editores.
    No Brasil, o lançamento de Jangada de pedra foi uma festa interminável. Filas enormes na livraria Timbre e a efusão de beijos e abraços no escritor fizeram-no exclamar, “Luiz, esta gente quer me matar de amor”. Daí para frente, esse amor dos brasileiros por José Saramago só cresceu, suas visitas se tornaram mais frequentes, e vários dos últimos livros lhe ocorreram em viagens pelo país, nas quais estávamos juntos. Lembro-me ao menos de três ocasiões em que isso aconteceu. A mais recente delas foi em sua última estada no Brasil, quando da publicação de A viagem do elefante, livro que José resolveu lançar mundialmente aqui, em novembro de 2008, como presente ao carinho e aos amigos brasileiros. Ele já estava muito fraco, e a viagem era mesmo uma ousadia. Ao chegar em minha casa, numa das nossas primeiras conversas, me disse que não escreveria mais, estava se sentindo velho e cansado.
     Depois do evento de lançamento no SESC Pinheiros, vencida uma fila enorme de autógrafos — Saramago nunca recusava autografar, nem mesmo doente —, fomos ao Rio, para a continuidade dos eventos. Ao pousarmos na cidade, enquanto eu recolhia as bagagens, José anunciou, para Lili, Pilar e eu, que decidira voltar a um velho projeto e que no voo achara a solução que faltava para Caim, que acabou sendo seu último livro.
    Eu poderia contar outras tantas histórias aqui. Poderia até falar das nossas discordâncias, de uma discussão amigável que tivemos, sentados no alto do Bauzinho, em São Bento do Sapucaí, olhando para o horizonte da Serra da Mantiqueira, que nós dois adorávamos. Mas o espaço é curto: um blog, mídia que Saramago curtiu muito antes que eu. Em outro momento, quem sabe. Agora só quero me despedir mais uma vez de José. Com as melhores lembranças, o amor, e minha saudade. Maldita palavra, tão portuguesa, que agora ficará associada ao meu amigo. Mas saudade não tem remédio, não é, José?

                                                                                                              Por Luiz Schwarcz

segunda-feira

Em viagem: Postagem diária em "LUGARES"

Desde 20 de maio estou pela Europa e por aqui permaneço até 30 de agosto. Convido a todos para que conheçam e acompanhem meu Diário de Viagem chamado "LUGARES", com impressões, experiências  e, é claro, muitas fotos.


Hábitos e esperanças

Hábitos e esperanças

segunda-feira

Agenda: MAIO/JUNHO/JULHO/AGOSTO

21/05 à 09/06/2010: Budapeste/Hungria.

10/06 à 20/06/2010: Istambul/Çanakkale (Tróia). Pérgamo/Izmir, Kusadasi, Éfeso, Pamukkale, Capadócia, Ankara/Turquia

20/06 à 30/06/2010: Budapeste/Hungria

01/07 à 05/07/2010: Sófia, Plovdiv, Kanzalak, Veliktarnovo/ Bucareste

05/07 à 09/07/2010: Brasov, Bucareste/ Romênia.

09/07 à 18/07/2010: Budapeste/ Hungria.

18/07 à 25/05/2010: Dublin, Belfast, Derry, Leterkenny, Donegal, Sligo, Galwaw/Irlanda e Irlanda do Norte.

25/07 à 25/08/2010: Paris/ França

25/08à /26/08: Paris/São Paulo/ Brasil

26/08: Retorno à Porto Alegre/RS/Brasil
Contatos:
fontrin@terra.com.br
http://isabelle-fontrin.blogspot.com/
http://isabelle-fontrin.blogspot.com/ (blog Diário de Viagem)
http://www.facebook.com/login.php
http://www.flickr.com/photos/isabellefontrin/

quarta-feira

8/03/2010 DIA DE LANÇAMENTO DO LIVRO "OUTRAS MULHERES"

Gurias,

Agora, é a hora da verdade. Ou de uma das verdades. Não se iludam. Uma carreira literária não se faz com a publicação de contos em antologias, com vitórias em concursos literários, com saraus.
Carreira literária é um processo lento, cumulativo. E passa, necessariamente, pela publicação de vários livros individuais, e não apenas um.
Coloquei todas as minhas fichas em vocês. Escolhi as autoras sozinho, pois sou o organizador e não podia delegar isso à "comissão julgadora". Escolhi os melhores contos e considerei, também, o perfil de cada uma de vocês, priorizando aquelas que, na minha opinião, têm fôlego de maratonista e não apenas de "cem metros".
Se o futuro me desmentir, e vocês não forem as "grandes damas da literatura gaúcha do século XXI", como tenho alardeado, a culpa não será apenas de caolhice minha, mas de empenho de vocês.
Na parábola dos talentos, quando retornou de viagem, o personagem de Jesus Cristo condenou duramente aqueles que esconderam a sua luz embaixo da cama. Luz é pra brilhar, luz é pra colocar no alto.
Hoje, simbolicamente, é o dia de acender a lâmpada!
Beijos,
CK

quinta-feira

PALAVRAS QUE FALAM

Existem palavras que têm o dom de nos tocar mais fundo. Estejam elas nas páginas de um livro, na letra de uma canção, ou poema. O certo é que, ao lê-las, suspiramos mais fundo e sentimos: aqui tem algo maior... e então anotamos, procuramos guardar na memória, ou as sorvemos. Aos escritores ainda ocorre o pensamento de queas poderiam ter escrito!!!
Convido a quem queira compartilhar que poste aqui algumas destas frases, bem como, é claro, seus respectivos autores:

"... MAS A LUA FURANDO NOSSO ZINCO, SALPICAVA DE ESTRELAS NOSSO CHÃO. TU PISAVAS NOS ASTROS DISTRAÍDA.. " 
 (música Chão de Estrelas, de Silvio Caldas e Orestes Barbosa)

..."QUEIXO-ME ÀS ROSAS, MAS QUE BOBAGEM, AS ROSAS NÃO FALAM, SIMPLESMENTE EXALAM O PERFUME QUE ROUBAM DE TI.."
(Música As Rosas Não Falam - Cartola)

Cada um descobre o seu anjo tendo um caso com o demônio.
Mia Couto
 
"livre, filho das montanhas,
eu ia bem satisfeito,
de camisa aberta ao peito,
pés descalços, braços nus,
correndo pelas campinas,
ao redor das cachoeiras,
atrás das asas ligeiras,
das borboletas azuis."
(do poema Meus Oito Anos - Casemiro de Abreu)
 

SOMOS TODOS UMA SÓ FAMÍLIA

http://www.youtube.com/watch?v=QlpB3PKZ9pU

LANÇAMENTO LIVRO OUTRAS MULHERES

OUTRAS MULHERES
Charles Kiefer
Gênero: Contos
Páginas: 144
Formato: 14x21 cm
ISBN: 9788562757075
Preço: R$ 26

Poucos são os escritores – ou mesmo artistas – que se dedicam com igual afinco ao seu ofício e à revelação de novos talentos. Mais raros ainda são aqueles com a coragem necessária para bancar essas apostas, colocando em jogo o próprio nome.
Charles Kiefer é um deles. Escritor consagrado e reconhecido incentivador de novos autores, jamais se furtou de apontar aqueles em quem identificou qualidades.
No fim dos anos 90, Charles Kiefer apostou em um time de escritoras ao organizar O livro das mulheres. E o resultado foi apresentar aos leitores nomes como Leticia Wierzchowski, Cíntia Moscovich, Adriana Lunardi, Paula Taitelbaum e Martha Medeiros.
Agora, ele toma mais uma vez para si o desafio de nos apresentar aquelas que prometem ser os grandes nomes da nossa literatura. A julgar pela qualidade dos textos presentes neste livro, Kiefer acertou de novo.
“Todas estas autoras têm uma sensibilidade especial talvez superior à sensibilidade masculina – mas são tão diferentes entre si que é impossível identificar nelas um modo de escrever para comparar com o dos homens. Elas são diferentes, sem dúvida. Mas cada uma é diferente à sua maneira.” Luis Fernando Verissimo
As Outras mulheres são:
Ana Cristina Klein
Ana Mariano
Angela Ramis
Ayalla de Aguiar
Cristina Moreira
Daniela Langer
Eni Allgayer
Isabelle Fontrin
Leila de Souza Teixeira
Lívia Petry
Miriam Cristina Nardin
Monique Revillion
Norma Ramos
Renata WolffVanessa Melo
Viviane Treméa

terça-feira

Receita de Ano Novo

Carlos Drummond de Andrade

Para você ganhar belíssimo Ano Novo
cor do arco-íris, ou da cor da sua paz,
Ano Novo sem comparação
com todo o tempo já vivido
(mal vivido talvez ou sem sentido)
para você ganhar um ano
não apenas pintado de novo,
remendado às carreiras,
mas novo nas sementinhas do vir-a-ser;
novo
até no coração das coisas menos percebidas
(a começar pelo seu interior)
novo, espontâneo,
que de tão perfeito nem se nota,
mas com ele se come, se passeia,
se ama, se compreende, se trabalha,
você não precisa beber champanha
ou qualquer outra birita,
não precisa expedir nem receber mensagens
(planta recebe mensagens?
passa telegramas?)

Não precisa
fazer lista de boas intenções
para arquivá-las na gaveta.

Não precisa chorar arrependido
pelas besteiras consumidas
nem parvamente acreditar
que por decreto de esperança
a partir de janeiro as coisas mudem
e seja tudo claridade, recompensa,
justiça entre os homens e as nações,
liberdade com cheiro e gosto de pão matinal,
direitos respeitados, começando
pelo direito augusto de viver.

Para ganhar um Ano Novo
que mereça este nome,
você, meu caro, tem de merecê-lo,
tem de fazê-lo novo, eu sei que não é fácil,
mas tente, experimente, consciente.

É dentro de você que o Ano Novo
cochila e espera desde sempre.





sexta-feira

Valmor Bordin presenteia este Blog com um belo conto de sua autoria...

HOMENZINHO

de Valmor Bordin 
   Um inseto que dormia debaixo da casca de uma palmeira, um dia acordou. Escorregou pela folha, e caiu no cálice de um cogumelo.
     Pronto! — estava transformado num homenzinho.
     Pesou no seu pequeno pescoço uma cabeça sem firmeza e sentiu a obrigação de criar um novo mundo. As lembranças desmanchavam devoradas pelos cupins.
     Um homem se criava, e sem saber o porquê, uma imensa tristeza inundava sua alma derramada num turbilhão de idéias confusas.
     Foi um inseto que vivia na quietude de um abismo cheio de ossadas humanas, velhas bacias de esmalte enferrujado, borboletas e girassóis.
     Nada conhecia o homenzinho recém-nascido. Sua vida era um sonho que ao dormir estava desperto e ao despertar adormecia. Jamais poderia imaginar que nada torna um homenzinho tão solitário como a desgraçada capacidade de enxergar as coisas.
     Compreendendo a vida aos poucos, tentou voar até um pessegueiro em flor, como um inseto, mas seus braços desajeitados golpeavam o ar e as mãos estalavam no peito e no rosto.
     Descobriu-se nu em pelo, a primeira vez, e cobriu o sexo com as mãozinhas. Caminhando sobre duas pernas e uma posição vertical, que deixava seu corpo esgotado e cheio de uma pureza tímida, tentou engatinhar, mas os joelhos e as mãos sangraram.
    Uma orquídea despencou de uma árvore e grudou em suas costas. Era um homenzinho recém-criado compreendendo aos poucos a matemática da vida.
     Descobriu um outro mundo, sentindo saudade da vida antiga quando tinha medo do sapo glutão que estendia a língua enorme, inchando o papo antes de engolir o inseto.
     Um vazio inteiro invadiu seu peito. Nostálgico, não via mais o sapo, só um pedaço dele, sua metade. A metade da palavra que se criava dentro de sua consciência. Pensou que só um inseto poderia entender o que se passa na língua de um sapo.
     Enquanto a dúvida roia, o homenzinho equilibrou a orquídea nas costas. Caminhou pelas montanhas. Pelas estradas, rios e florestas. Machucou os pés tropeçando nas pedras, lambuzou o rosto caindo no pântano, fechou os olhos quando viu a luz e abriu quando viu a sombra — resquício da sua vida de inseto.
     Porém, tinha novos sentidos. Novas antenas e olhos que não mais teriam o olhar em xadrez. Viu na lagoa uma estranha imagem. Um pássaro enorme matava a fome palitando os dentes de um velho boi morrente.
     Numa certa altura do seu andar pensou:
     — Não, senhor Sartre, o senhor não tem razão. O inferno não são os outros. E você Gregor Samsa, agradeça a Kafka. Pelo menos você encontrou a sola do sapato de um pai para te esmagar. Não tive a mesma sorte. Estou condenado a viver levando dentro de mim cicatrizes, arranhões e uma mancha de sangue no meu pé esquerdo aleijado, correndo sem parar. Fui um inseto grudado numa árvore, vivendo de sugar as gotinhas de sangue dos animaizinhos que passavam, e, assim me esquivei de uma porção de desgraças. Fui poupado do grito do nascimento, do lamento do peixe fisgado no grande rio, mas fui levado pela mão moderna ao cadafalso.
     Era um inseto que dormia no oco de uma árvore, que a vida oferecia tudo naquela hibernação. Um pequeno e horrível inseto redondo, de corpo marrom-acizentado. Liso e duro. Esperando que a seiva do galho ou o sangue do boi pastando fluísse dentro dele. De propósito, ficava pequeno e quase invisível para que ninguém visse seu corpo. Temendo que um palmo de mãos espalmadas, batendo em salvas o esmagasse. Era um solitário inseto recolhido em si mesmo, escondido em sua casca, tentava sugar os animais que passavam na sua frente. Que um dia, de tanto dormir, caiu no cálice de um cogumelo, esperando que o acaso o conduzisse à seiva, ou quem sabe à casa alheia.
     Um desfile de borboletas, abelhas e formigas com suas cores misturadas, prestavam atenção ao seu corpo animal quase humano correndo desesperado.
     O homenzinho olhava para trás, e via no rastro da dura travessia, o pé da floresta chorando no meio do silencioso deserto vegetal. De vez em quando, um grupo de fungos e bactérias congregava-se sobre uma folha e recuperava o sal do suor caído do rosto do homenzinho.
     — Ah! Fungos e bactérias. Malditos parasitas. Pensou o homenzinho enquanto corria pisando em lagartixas e vermes.
     Um grupo de formigas aglomerou-se ao redor de uma gota de sangue, do machucado do seu pé e fez um banquete. Beberam como quem bebe um bom sangue, caindo como migalha de pão —devoram o cadáver de uma borboleta. Eram daquelas formigas que tinham um faro pelo sangue.
     O homenzinho chegou numa pequena propriedade rural, cheia de poça d’água, arados velhos, enxadas imprestáveis, cangas apodrecendo, carroças minguando e aspas de bois enterradas. Um cachorro o espreitava embaixo de um limoeiro.
     Encontrou uma casinha de tábuas. Um suor pegajoso escorria de suas costas servindo de pasto para os mosquitos que saltavam das telhas. Afugentou-os, agitando a cabeça.
     Bateu palmas. Ninguém ouviu. Bateu as mãos novamente, e como ninguém deu resposta, abriu a porta e caminhou até pousar a mão no ombro de um homem velho. Percorreu aquele corpo até repousar os dedos no peito. Sentiu um marcapasso batendo desordenado. Tropeçou numa mulher grávida que não produzia leite algum. Olhou para aquela barriga e pensou que também poderia ter uma mãe.
     Então gritou:
     — Onde está você, mamãe?
     Porém, entre ele e aquela mãe, havia um grupo de oito abismos. Era um pobre homenzinho misturado dentro daquela casa.
     Correu atravessando o corredor e escondeu-se atrás de uma porta. Um grupo de pessoas, ao redor de uma mesa, conversava assuntos importantes a respeito da sobrevivência humana. Um homem usando uma lupa colada ao olho, falava:
     —Uma girafa pode limpar as próprias orelhas com a língua. A escova de dente, azul, é mais usada que a vermelha. O porco é o único animal que queima ao sol, além do homem. Os olhos de um hamster podem cair se ele for pendurado de cabeça para baixo. O golfinho dorme com um olho aberto. Um em cada três sorvetes vendidos no mundo é de baunilha. Os chimpanzés são capazes de se reconhecer diante do espelho. É possível conduzir uma vaca escada acima, mas não escada abaixo. Ninguém consegue lamber o próprio cotovelo porque é impossível tocá-lo com a própria língua. Não dá para cometer suicídio parando a própria respiração. Os insetos domésticos vivem apenas duas semanas. O quá-quará-quá-quá de um pato não produz eco e ninguém sabe explicar o porquê.
     O homenzinho ouviu a batida do cuco do relógio e lembrou da sua infância de inseto. Estranhou que todas aquelas tivessem os joelhos grudados à mesa, impedidas de se levantar. Elas almoçavam um banquete de ossos, rins e fígado.
     Observou a fumaça fumegando da chaminé, depois correu porta afora. O que acontecia naquele lugar era segredo dos que estavam lá.
     Percebeu que deveria viver com um sentimento chamado solidão, alfinetando seu pé viajor, mas não tinha a menor idéia onde poderia abrigá-lo. A orquídea aos poucos encontrava morada em suas costas.
     Alguma coisa palpitava dentro do seu peito, — era um coração humano. Sentiu um líquido deslizar pelo rosto. Naquele momento descobriu a lágrima .
     Foi invadido pela solitária necessidade de falar com o filho do Nosso Senhor, mas como ele não estava ao seu alcance, chamou de Menino Jesus ao inseto desamparado que dormia escondido na casca de uma palmeira.