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domingo

VOO RUMO ÀS ASAS - VALMOR BORDIN

O livro VOO RUMO ÀS ASAS, do médico psiquiatra Valmor Bordin, como bem diz Simone Schhlottfeltd, da Editora Nova Prova, "trata-se de uma preciosidade, não só à Psiquiatria e a todos que a ela estão vinculados, como também ao leitor capaz de se sensibilizar diante do mais puro e verdadeiro sentimento humano, expresso em cada linha desta obra, capaz de perceber que a arte e a loucura andam de mãos dadas, que é impossível vislumbrar a linha limítrofe entre uma e outra, e, finalmente, que uma não sobreviveria sem a outra."
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A quem como eu teve Valmor Bordin como colega de oficina não existe novidade, apenas confirmação de seu talento, e de sua sensibilidade.
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''A loucura é um fio de alta tensão onde pousa uma andorinha, com um raminho de grama preso ao bico e as asinhas samprando, com suas penas mansas, longe do ninho. Nestas linhas, nenhuma certeza, apenas divagações sobre o delírio, com ou sem aspas. Para quem quiser entrar neste barco e depois sair, basta ser humano. Afinal,"louco é sempre o outro". Espero não estar falando sozinho." (Valmor Bordin)
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Valmor, com certeza não estás...




"Não toque esta música triste, eu não posso ouvir
NA SURDINA O CANTO RÓI OS OSSOS"

segunda-feira

DECALÓGO DO LEITOR
Por Alberto Mussai
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I. Nunca leia por hábito: um livro não é uma escova de dentes. Leia por vício, leia por dependência química. A literatura é a possibilidade de viver vidas múltiplas, em algumas horas. E tem até finalidades práticas: amplia a compreensão do mundo, permite a aquisição de conhecimentos objetivos, aprimora a capacidade de expressão, reduz os batimentos cardíacos, diminui a ansiedade, aumenta a libido. Mas é essencialmente lúdica, é essencialmente inútil, como devem ser as coisas que nos dão prazer.
II - Comece a ler desde cedo, se puder. Ou pelo menos comece. E pelos clássicos, pelos consensuais. Serão cinqüenta, serão cem. Não devem faltar As mil e uma noites, Dostoiévski, Thomas Mann, Balzac, Adonias, Conrad, Jorge de Lima, Poe, García Márquez, Cervantes, Alencar, Camões, Dumas, Dante, Shakespeare, Wassermann, Melville, Flaubert, Graciliano, Borges, Tchekhov, Sófocles, Machado, Schnitzler, Carpentier, Calvino, Rosa, Eça, Perec, Roa Bastos, Onetti, Boccaccio, Jorge Amado, Benedetti, Pessoa, Kafka, Bioy Casares, Asturias, Callado,Rulfo, Nelson Rodrigues, Lorca, Homero, Lima Barreto, Cortázar, Goethe, Voltaire, Emily Brontë, Sade, Arregui, Verissimo, Bowles, Faulkner, Maupassant, Tolstói, Proust, Autran Dourado, Hugo, Zweig, Saer, Kadaré, Márai, Henry James, Castro Alves.
III - Nunca leia sem dicionário. Se estiver lendo deitado, ou num ônibus, ou na praia, ou em qualquer outra situação imprópria, anote as palavras que você não conhece, para consultar depois. Elas nunca são escritas por acaso.
IV - Perca menos tempo diante do computador, da televisão, dos jornais e crie um sistema de leitura, estabeleça metas. Se puder ler um livro por mês, dos 16 aos 75 anos, terá lido 720 livros. Se, no mês das férias, em vez de um, puder ler quatro, chegará nos 900. Com dois por mês, serão 1.440. À razão de um por semana, alcançará 3.120. Com a média ideal de três por semana, serão 9.360. Serão apenas 9.360. É importante escolher bem o que você vai ler.
V - Faça do livro um objeto pessoal, um objeto íntimo. Escreva nele; assinale as frases marcantes, as passagens que o emocionam. Também é importante criticar o autor, apontar falhas e inverossimilhanças. Anote telefones e endereços de pessoas proibidas, faça cálculos nas inúteis páginas finais. O livro é o mais interativo dos objetos. Você pode avançar e recuar, folheando, com mais comodidade e rapidez que mexendo em teclados ou cursores de tela. O livro vai com você ao banheiro e à cama. Vai com você de metrô, de ônibus, e de táxi. Vai com você para outros países. Há apenas duas regras básicas: use lápis; e não empreste.
VI - Não se deixe dominar pelo complexo de vira-lata. Leia muito, leia sempre a literatura brasileira. Ela está entre as grandes. Temos o maior escritor do século XIX, que foi Machado de Assis; e um dos cinco maiores do século XX, que foram Borges, Perec, Kafka, Bioy Casares e Guimarães Rosa. Temos um dos quatro maiores épicos ocidentais, que foram Homero, Dante, Camões e Jorge de Lima. E temos um dos três maiores dramaturgos de todos os tempos, que foram Sófocles, Shakespeare e Nelson Rodrigues.
VII - Na natureza, são as espécies muito adaptadas ao próprio hábitat que tendem mais rapidamente à extinção. Prefira a literatura brasileira, mas faça viagens regulares. Das letras européias e da América do Norte vem a maioria dos nossos grandes mestres. A literatura hispano-americana é simplesmente indispensável. Particularmente os argentinos. Mas busque também o diferente: há grandezas literárias na África e na Ásia. Impossível desconhecer Angola, Moçambique e Cabo Verde. Volte também ao passado: à Idade Média, ao mundo árabe, aos clássicos gregos e latinos. E não esqueça o Oriente; não esqueça que literatura nenhuma se compara às da Índia e às da China. E chegue, finalmente, às mitologias dos povos ágrafos, mergulhe na poesia selvagem. São eles que estão na origem disso tudo; é por causa deles que estamos aqui.
VIII - Tente evitar a repetição dos mesmos gêneros, dos mesmos temas, dos mesmos estilos, dos mesmos autores. A grande literatura está espalhada por romances, contos, crônicas, poemas e peças de teatro. Nenhum gênero é, em tese, superior a outro. Não se preocupe, aliás, com o conceito de gênero: história, filosofia, etnologia, memórias, viagens, reportagem, divulgação científica, auto-ajuda – tudo isso pode ser literatura. Um bom livro tem de ser inteligente, bem escrito e capaz de provocar alguma espécie de emoção.
IX - A vida tem outras coisas muito boas. Por isso, não tenha pena de abandonar pelo meio os livros desinteressantes. O leitor experiente desenvolve a capacidade de perceber logo, em no máximo 30 páginas, se um livro será bom ou mau. Só não diga que um livro é ruim antes de ler pelo menos algumas linhas: nada pode ser tão estúpido quanto o preconceito.
X - Forme seu próprio cânone. Se não gostar de um clássico, não se sinta menos inteligente. Não se intimide quando um especialista diz que determinado autor é um gênio, e que o livro do gênio é historicamente fundamental. O fato de uma obra ser ou não importante é problema que tange a críticos; talvez a escritores. Não leve nenhum deles a sério; não leve a literatura a sério; não leve a vida a sério. E faça o seu próprio decálo.
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DECÁLOGO DO AUTOR
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Por Miguel Sanches Neto
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Depois de leitor, você pode se tornar, então, escritor– embora, pasme, muitos hoje pulem a leitura, por julgá-la dispensável, e já desejem publicar.
I - Não fique mandando seus originais para todo mundo.Acontece que você escreve para ser lido extramuros, e deseja testar sua obra num terreno mais neutro. E não quer ficar a vida inteira escrevendo apenas para uma pessoa. O que fazer então para não virar um chato? No passado, eu aconselharia mandar os textos para jornais e revistas literárias, foi o que eu fiz quando era um iniciante bem iniciante. Mas os jovens agora têm uma arma mais democrática. Publicar na internet. Há muitos espaços coletivos, uma liberdade de inclusão de textos novos e você ainda pode criar seu próprio site ou blog, mas cuidado para não incomodar as pessoas, enviando mensagens e avisos para que leiam você.
II - Publique seus textos em sites e blogs e deixe que sigam o rumo deles. Depois de um tempo publicando eletronicamente, você vai encontrar alguns leitores. Terá de ler os textos deles, e dar opiniões e fazer sugestões, mas também receberá muitas dicas.
III - Leia os contemporâneos, até para saber onde é o seu lugar. Existe um batalhão de internautas ávidos por leitura e em alguns casos você atingirá o alvo e terá acontecido a magia de um texto encontrar a pessoa que o justifica. Mas todo texto escrito na internet sonha um dia virar livro. Sites e blogs são etapas, exercícios de aquecimento. Só o livro impresso dá status autoral. O que fazer quando eu tiver mais de dois gigas de textos literários? Está na hora de publicar um livro maior do que Em busca do tempo perdido? Bem, é nesse momento que você pode continuar sendo um escritor iniciante comum ou subir à categoria de iniciante com experiência. Você terá que reduzir essas centenas e centenas de páginas a um formato razoável, que não tome muito tempo de leitura de quem, eventualmente, se interessar por um livro de estréia. Para isso,você terá de ser impiedoso, esquecer os elogios da mulher e dos amigos e selecionar seu produto, trabalhando duro para que fique sempre melhor.
IV - Considere apenas uma pequenina parte de toda a sua produção inicial, e invista na revisão dela, sabendo que revisar é cortar. O livro está pronto. Não tem mais do que 200 páginas, você dedicou anos a ele e ainda continua um iniciante. Mas um iniciante responsável, pois não mandou logo imprimir suas obras completas com não sei quantos tomos, logo você que talvez nem tenha completado 30 anos. Mas você quer fazer circular a sua literatura de maneira mais formal. Quer o livro impresso. E isso é hoje muito fácil. Você conhece um amigo que conhece uma gráfica digital que faz pequenas tiragens e parcela em tantas vezes. O livro está pronto. E anda sobrando um dinheirinho, é só economizar na cerveja.
V - Gaste todo seu dinheiro extra em cerveja, viagens, restaurantes e não pague a publicação do próprio livro. Se você fizer isso, ficará novamente ansioso para mandar a todo mundo o volume, esperando opiniões que vão comparar o seu trabalho ao dos mestres. O livro impresso, mesmo quando auto-impresso, dá esta sensação de poder. Somos enfim Autores. E podemos montar frases assim: Borges e eu valorizamos o universal. Do ponto de vista técnico, Borges e eu estamos no mesmo nível: produzimos obras impressas; mas a comparação não vai adiante. Então como publicar o primeiro livro se não conhecemos ninguém nas editoras? E aí começa um outro problema: procurar pessoas bem postas em editoras e solicitar apresentações. Na maioria das vezes isso não funciona. E, mesmo quando o livro é publicado, ele não acontece, pois foi um movimento artificial.
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DECÁLOGO DO CRÍTICO
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Por Michel LaubLer
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Por obrigação, ganhar pouco, ser odiado por autores criticados ou ignorados por você. Ante tantos dissabores, saiba para que serve, afinal, fazer crítica literária.
I - Um bom começo pode ser a leitura de O imperador do vinho, de Elin McCoy, a biografia do americano Robert Parker. Trata-se da figura mais polêmica do universo milionário da enologia. Uma nota alta na The Wine Advocate, sua newsletter, é capaz de enriquecer um fabricante; uma nota baixa pode significar a falência. O olfato de Parker é segurado em cerca de US$ 1 milhão. Ao longo dos anos, percebeu-se que ele gostava de vinhos frutados. Muitas propriedades, até algumas tradicionais da França, passaram a chamar especialistas para estudar o solo, mudar a forma do plantio e da colheita, tudo para colher uvas que originassem vinhos adequados a esse gosto.
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II - Saiba que esse talvez seja o exemplo máximo de crítico bem-sucedido no mundo de hoje – rico de fato, influente de fato, uma presença de fato essencial em seu meio. Quase todos os outros profissionais da categoria, trabalhem eles com música, cinema, gastronomia, televisão ou concursos de beleza, estão bem mais próximos da figura descrita por George Orwell em Confissões de um resenhista: “Trinta e cinco anos, mas aparenta cinqüenta(...) [trabalha num] conjugado frio, mas abafado (...). Dos milhares de livros que aparecem todo ano, é quase certo que existam 50 ou 100 sobre os quais teria prazer em escrever. Se for de primeira categoria na profissão, pode conseguir dez ou vinte. É mais provável que consiga dois ou três”.
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III - Ou seja, prepare-se para uma atividade enfadonha e mal-remunerada. Você lerá só por obrigação. Nunca mais irá atrás de um livro indicado por um amigo. Nunca mais fechará um livro com a sensação de que, para o bem ou para o mal, não há nada a dizer sobre ele. Porque sempre haverá o que dizer. Se não houver, as contas não são pagas.
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IV - Não se preocupe, porém. Há muitos truques para encher essas páginas em branco. Se você quer desancar um livro e não sabe como, recorra a alguns adjetivos algo abstratos em se tratando de literatura, mas ainda assim úteis numa resenha. A timidez, por exemplo. Argumente que o autor não explora suficientemente os conflitos de sua obra. Afinal, explorar conflitos é uma tarefa que não tem fim, e há um momento em que todo autor, por mais extrovertido que seja, precisa parar. Outros chavões sempre à mão: excesso de objetividade,excesso de subjetivismo, excesso de frieza, excesso de dramaticidade. A categoria das “idéias fora de lugar”, deslocada de seu contexto original, também ajuda bastante. Um romance correto, instigante e envolvente pode ser atacado por reproduzir um modelo “burguês” de contar histórias, incompatível com o nosso tempo. Um romance sem essas características pode ser destruído, justamente, por ser mal-escrito e não envolver o leitor.
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V - Para o caso contrário, isto é, se você quer elogiar um livro que acha ruim – o das linhas finais do item IV, por exemplo –, há dois recursos clássicos: a) em relação à prosa desagradável, escatológica e/ou ilegível, diga que ela reproduz o incômodo e a irredutibilidade de sentidos do mundo contemporâneo; b) em relação à trama caótica e fragmentária, quando não se entende o que é início, o que é fim e do que é mesmo que estamos falando, afirme que a maçaroca reproduz, como uma “metáfora estrutural”, o caos fragmentário da sociedade pós-industrial.
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VI - Usando desses truques, você está pronto para fazer nome devido à afinação com o vocabulário crítico de sua época. Mas se, por um desses acasos raros, você está decidido a realmente dizer o que pensa, há também dois caminhos a seguir. O primeiro é confiar cegamente nos seus juízos pessoais, não temendo a exposição de seus preconceitos íntimos em público. Assim, você terá mais chances de ser considerado um sujeito ranheta, excêntrico e/ou pervertido.
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VII - O segundo caminho é considerar-se portavoz de um “sistema”, para o qual são válidas mesmo obras que não são do seu agrado (por questões sociológicas, por exemplo). Mesmo que os motivos sejam nobres – sua humildade para não se considerar o juiz definitivo sobre o que é ou não relevante em termos estéticos –, há boas probabilidades de você ser visto como um crítico sem alma, sem coragem, sem graça.
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VIII - Independentemente de sua escolha, é inevitável que você seja desprezado. Todos dirão que seu desejo secreto era ser ficcionista ou poeta, que você é leviano demais, complacente demais, que tem algum interesse obscuro – ascender na carreira, agradar aos pares da universidade, arrumar um(a) namorado(a) – ou está a soldo de alguma entidade obscura – grupos literários rivais, editores, maçons, seitas religiosas, partidos políticos de esquerda (se você escrever numa pequena publicação) ou de direita (se receber salário de alguma corporação de mídia).
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IX - Mais que isso: você será odiado. Pelos autores que você desanca. Pelos autores que você ignora. Pelos autores que você elogia (os motivos serão sempre os errados, na opinião deles). Pelos outros críticos. Por boa parte do público, mesmo por aquele que o lê com freqüência.
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X - Mas se, apesar de tudo isso, você ainda insiste em abraçar a profissão, é bom se perguntar o motivo. Quando criança, usando o olfato, Robert Parker era capaz de listar todos os ingredientes dos pratos que estavam sendo cozinhados na vizinhança, habilidade que o tornaria um campeão absoluto dos “testes cegos” de identificação de uvas e safras. Isso se chama vocação. É o seu caso? Você se sente preparado para conjugar erudição e capacidade interpretativa em tamanha escala? Sendo a resposta afirmativa, trata-se de uma ótima notícia. Não só para você, que talvez tenha achado um modo honesto de ganhar a vida, mas para o próprio meio literário. Porque não há nada de que ele necessite mais, hoje ou em qualquer tempo: alguém que o ajude a firmar tendências, corrigir rumos, separar o joio do trigo. Diferentemente do que se diz, um crítico autêntico não é apenas o advogado do público. Ele é, em última instância, o maior defensor da própria literatura.

Matéria da Revista Vida Simples
(Novembro de 2007)
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Fiés ao sonho A luta pela vocação na trajetória de quatro destacados escritoresbrasileiros contemporâneos. Inspire-se com eles e corra atrás daquilo quedeixa você realmente feliz .
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(por Fabrício Carpinejar)
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Escritor não nasce pronto. A profissão “escritor” não consta em testevocacional nas universidades. No máximo, verifica-se uma inclinação àsLetras do vestibulando. E parece relativamente fácil ser escritor: boasidéias, caneta e papel (ou um bom processador de textos no computador). Mascomo alguém pode adivinhar se é destinado para aquilo? Qual é o segredo paradeixar uma carreira estável ou um emprego seguro para se enfurnar emescrever e escrever histórias atravessando madrugadas e manhãs secretamente,sem nenhuma testemunha? Digitar um punhado de páginas, imprimir, encaixar asfolhas numa espiral preta, enviá-las para uma editora e sentir um misto deorgulho e medo. Orgulho porque é seu primeiro livro, medo porque não temcerteza se o esforço valeu a pena. Trabalhar e trabalhar, longe de umarecompensa imediata. O que faz alguém acordar de manhã e dizer para simesmo: “Eu sou escritor”? Conheça o que dizem alguns autores brasileirosque, a muito custo, conseguiram se impor no cenário das letras. E aprenda alutar pelos seus sonhos (quaisquer que sejam eles), como eles um diafizeram. Cara sortudo?Ao tomar nas mãos um livro como os contos de Os Lados do Círculo, de AmilcarBettega Barbosa, 43 anos, nem se imagina quanto o escritor penou para estarno topo de uma pilha de volumes na livraria. Tampouco que seu autor recebeua bagatela de 100 mil reais pela obra no prestigiado Prêmio Portugal Telecomem 2005. Mas a predisposição é comentar: “Cara sortudo!” Porém, esse mesmoautor, tão bem resolvido na pequena biografia da orelha do livro, dono de umsorriso cativante na fotografia da aba, poderia ser encontrado atendendo osfregueses do sebo Ao Pé da Letra, em Porto Alegre, no início dos anos 90. Em1994, Amilcar estava do outro lado de um guichê do Banco do Brasil. Passamais um tempo, está vendendo seguros. Outro tanto e o autor chegou a ganhara vida como recepcionista de um hotel na costa lusitana. Amilcar ainda foi engenheiro civil, profissão que exerceu por cinco anos,fez peritagens em obras no interior gaúcho, sempre escrevendo no tempo vago.Até conseguir se impor no cenário literário, ele demorou muito. Muito mesmo.Como ele relata: “Perdi a conta de quantas editoras para as quais mandei olivro. Foi recusado por todas, até que deixei de lado a idéia da publicaçãoe me concentrei num outro livro, que terminei, enviei à editora e foiaprovado. Só depois de publicado esse livro (que na verdade era meu terceiroescrito) é que voltei àquele segundo, o entravado, Os Lados do Círculo.Retrabalhei o livro, propus de novo à editora, que o publicou. E o livroacabou ganhando o grande prêmio, não é incrível?” Nasceu pra coisa?Sim, a literatura é incrível, e o que há por detrás dela mais ainda. Vá atésua livraria predileta. Ali, poderá observar uma trinca de volumes de capapreta sob o título em relevo de Inferno Provisório. Romances! O autor é LuizRuffato. Poucas informações a seu respeito. É mineiro, tem 46 anos. Mas, aodedilhar suas obras anteriores, o leitor destrinchará um punhado de prêmioscomo da Associação Paulista dos Críticos de Arte (três vezes) e Machado deAssis, da Fundação Biblioteca Nacional. Além disso, o sujeito inspirou umapeça de teatro e está editado na Itália, França e Espanha. Mas Ruffato, acredite, já foi ajudante de pipoqueiro e vendedor dequebra-queixo aos 6 anos de idade. Depois, pela ordem, atuou como caixeirode botequim, balconista de armarinho, operário têxtil (do setor de algodãohidrófilo), torneiro-mecânico, jornalista, sócio de uma assessoria deimprensa, gerente de lanchonete, vendedor de livros autônomo. E desde 2003vive apenas da literatura. Ruffato diz que não deseja mais nada, por isso é capaz de desejar tudo. Quea pretensão dos seus pais, semianalfabetos e pobres de Cataguases (MG), eraque ele se transformasse em torneiro-mecânico. “Eu superei qualquerexpectativa”, confessa. “Na minha casa havia um único livro, a Bíblia, domeu pai evangélico. Eu só vim a ser apresentado a um livro quando tinha uns14 anos, e por acaso. Um dia, meu pai conseguiu uma vaga para mim numaescola boa da cidade, onde estudavam os ricos. Eu me sentia um completoestranho no meio daquelas pessoas todas e então passei, por timidez e porexclusão, a circular pela biblioteca, como meio de fuga. Entrava e ficavaperambulando por entre as mesas e cadeiras. Até que um dia a bibliotecáriame entregou um livro e eu não tive coragem de recusar. Levei-o para casa,li, fiquei doente e daí para a frente passei a ser um voraz e onívoroconsumidor de livros”, afirma. Fama instantânea?Autor de Cinzas do Norte, que vendeu 15 mil exemplares e recebeu os prêmiosJabuti, Portugal Telecom, Bravo! e APCA, o amazonense Milton Hatoum, 55anos, navega numa maré boa de superlativos. Mas nem sempre a vida lhe sorriuassim. Sua consagração atual esconde uma luta incansável, e nada vã, com aspalavras. Ele só conseguiu publicar em 1989 (aos 37 anos, portanto).Tratava-se do elogiado romance Relato de um Certo Oriente, que imediatamenteconquistou os leitores mais exigentes. Antes, Hatoum estudou arquitetura na USP, estagiou numa construtora,lecionou em faculdade do interior de São Paulo, envolveu-se em projetosarquitetônicos na década de 70, colaborou com a seção de cultura da revistaIstoÉ, morou mais de quatro anos na Europa. De 1985 a 1999, entrava em salade aula como pacato professor da Universidade Federal do Amazonas. Passoualgumas temporadas na Califórnia, onde conduziu atividades na Universidadede Berkeley. Nada mal para quem fez bicos inimagináveis na Espanha, como cantar nascalçadas de Madri. Ao lado de uma exilada argentina, Hatoum entoava algunsclássicos da MPB para completar o orçamento. “A gente aprende com os erros.Não há nada mais humano que o fracasso. Aprendi a dialogar. Escrevo ummanuscrito e dialogo com os editores, os amigos. E aprendo com eles. Achoque ninguém sabe o que vai acontecer com um livro. É um grande mistério. Àsvezes é um fracasso total, outras vezes pode cair nas graças do bom leitor.E não há prêmio que substitua um bom leitor, porque ele justifica aliteratura. Não esperava ser lido por um grande número de leitores, e issoestá acontecendo com o Dois Irmãos. Pensava que minha mãe seria a únicaleitora. E ela, ao contrário, tinha certeza de que meus livros seriamsucesso de público e crítica. Quis saber por que, e ela respondeu: ‘Vocênunca vai saber o que é intuição de mãe’,” afirma ele. Trabalho fácil?Teimosia é confiança no talento. O escritor gaúcho Charles Kiefer, 48 anos,literalmente correu atrás da máquina. Foi motorista de caminhão, bancário,jornalista, passador de sinteco, vendedor de enciclopédia, datilógrafo,radialista, funcionário de cooperativa agrícola, assessor editorial,instrutor de oficinas literárias, secretário de Cultura de Porto Alegre esub-secretário de Cultura do estado do Rio Grande do Sul. Kiefer já vendeu mais de 100 mil exemplares de sua novela Caminhando naChuva. Ganhou alguns Jabutis. Outros livros seus viraram argumentos parafilmes. Sua ascensão contou com a solidariedade generosa da namorada, naépoca em que vendia peixes de porta em porta. A mãe de sua primeira filhafingia que não reparava em seu insuportável cheiro de cardume. Hoje ele nãocheira mais a mar, mas não abdica de nenhuma das experiências anteriores queo ajudaram a elaborar personagens. Outrora colono da pacata cidade de Três de Maio, nos rincões gaúchos,Charles Kiefer hoje ensina criação literária a aspirantes a escritores naPUC de Porto Alegre. É capaz de falar com propriedade da importância departir para a rua e conhecer o mundo como ele é. “Tenho um romance, Valsapara Bruno Stein, que agora virou filme, que se passa numa olaria. Todomundo me pergunta como é que sei tanto sobre o processo de industrializaçãoprimitivo de uma olaria. Ora, entre os muitos trabalhos que fiz na vida, umdeles foi trabalhar em olaria, cortando barro, gradeando tijolos, enfornandotijolos, queimando tijolos e, finalmente, transportando os tijolos prontosnum velho caminhão F-600. A viagem do escritor tem 5 mil quilômetros, mas épreciso dar o primeiro passo. Se eu escrevesse para ganhar dinheiro, játeria desistido. Eu escrevo para salvar a mim mesmo”, afirma.
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Para saber mais
Livros:
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• Os Lados do Círculo, Amilcar Bettega Barbosa, Companhia das Letras
• Inferno Provisório, (3 volumes), Luiz Ruffato, Record
• Dois Irmãos, Milton Hatoum, Companhia das Letras
• Caminhando na Chuva, Charles Kiefer, Ática
A Supersticiosa Ética do Leitor
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(Jorge Luiz Borges)
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A indigente condição das nossas letras, sua incapacidade de atrair,produziram uma superstição do estilo, uma distraída leitura de atençõesparciais. Os que padecem dessa superstição entendem por estilo, não aeficácia ou ineficácia de uma página, mas sim as habilidades aparentes doescritor: suas comparações, sua acústica, os lances de sua pontuação e desua sintaxe. São indiferentes à própria convicção ou à própria emoção:buscam tecniquerías (a palavra é de Miguel de Unamuno) que lhes informarãose o escrito tem ou não direito a lhes agradar. Ouviram dizer que aadjetivação não deve ser trivial, e opinarão que uma determinada página estámal escrita caso não encerre surpresas na ligação dos adjetivos com ossubstantivos, ainda que sua finalidade geral esteja realizada. Ouviram dizerque a concisão é uma virtude, e entendem por conciso quem se demora em dezfrases breves e não quem maneje uma frase longa. (Exemplos normativos dessacharlatanice da brevidade, desse frenesi sentencioso, podem ser encontradosna maneira de escrever do célebre estadista dinamarquês Polônio, de Hamlet,ou desse PolÔnio natural que é Baltazar Gracián.) Ouviram dizer que arepetição, seguida e aproximada, de uma determinada sílaba é cacofonia, esimularão que em prosa isto lhes dói, ainda que em verso lhes proporcione umgosto especial (igualmente simulado, acho eu). Significa que não se fixam naeficácia do mecanismo, e sim na disposição de seus componentes. Subordinam aemoção à ética, ou melhor, a uma etiqueta não contestada. Generalizou-se detal maneira esta inibição, que já não restam leitores no sentido ingênuo dapalavra, já que todos são críticos potenciais.Tão aceita é esta superstição, que ninguém se atreverá a admitir .ausênciade estilo em obras que a ele se referem, principalmente se são obrasclássicas. Nao há livro bom sem sua atribuição estilística, da qual ninguémpode prescindir — exceto o autor. Sirva-nos de exemplo o D. Quijote. Acrítica espanhola, diante da comprovada excelência dessa novela, não quispensar que o seu maior valor (e talvez o único irrecusável) fosse opsicológico, e lhe atribui dons de estilo que a muitos parecerãomisteriosos. Em verdade, basta revisar alguns parágrafos do Quijote parasentir que Cervantes não era um estilista (pelo menos na atual acepçãoacústico-decorativa da palavra) e que lhe interessavam demasiado os destinosde Quixote e de Sancho para deixar-se distrair por sua própria voz. Agudezay arte de ingenio, de Baltazar Gracián — tão laudativa de outras prosas quenarram, como a de Guzmán de Alfarache — não se resolve a lembrar-se de DomQuijote. Quevedo versifica em tom de broma a sua morte, esquecendo-se dele.Poderá objetar-se que os dois exemplos são negativos, porém LeopoldoLugones, nosso contemporâneo, emite um julgamento explícito: "O estilo é adebilidade de Cervantes, e os estragos causados por sua influência sãograndes. Pobreza de cor, insegurança de estrutura, parágrafos arquejantesque nunca acertam com o final, desenvolvendo-se em retorcimentosintermináveis, repetições e falta de proporção, esse o legado dos que nãovendo senão na forma a suprema realização da obra imortal, ficaram roendouma casca cujas asperezas escondiam a fortaleza e o sabor". (El impériojesuítico, página 59). E diz, também, o nosso Groussac: "Se hão dedescrever-se as coisas como são, deveremos confessar que uma boa metade daobra é de tal forma florida e desalinhavada, que amplamente se justifica apecha de humilde idioma que lhe atribuíam os rivais de Cervantes. E com istonão me refiro única nem principalmente às impropriedades verbais, àsintoleráveis repetições ou trocadilhos, nem tampouco aos retalhos de pesadasgrandiloqüências que nos oprimem, mas tão somente à contextura, geralmentedesbotada, dessa prosa de sobremesa" (Crítica literária, página 41). Prosade sobremesa, prosa conversada e não declamada, é essa de Cervantes, enenhuma outra lhe faz falta. Imagino que esta mesma observação será justa nocaso de Dostoievski, de Montaigne ou de Samuel Butler.Esta vaidade de estilo se afunda em outra vaidade mais patética, que é a daperfeição. Não existe um escritor métrico, por casual e nulo que seja, quenão tenha cinzelado (o verbo costuma figurar em sua conversação) seu sonetoperfeito, monumento minúsculo que custodia sua possível imortalidade, e queas novidades e aniquilações do tempo deverão respeitar. Trata-se geralmentede um soneto sem rípios, mas que é, ele todo, um rípio; quer dizer, é umresíduo, uma inutilidade. Essa falácia de permanência (Sir Thomas Browne:Urn Burial) foi formulada e recomendada por Flaubert nesta sentença: "Acorreção (no sentido mais elevado da palavra) obra com o pensamento o mesmoque obraram as águas da Estígia com o corpo de Aquiles: fazem-noinvulnerável e indestrutível" (Correspondance, II, página 199). O parecer éterminante, porém não chegou até mim nenhuma experiência que o confirme.(Prescindo das virtudes tónicas da Estígia; essa reminiscência infernal nãoé um argumento, é uma ênfase.) A página de perfeição, a página onde nenhumapalavra pode ser alterada sem dano, é a mais precária de todas. As mudançasda linguagem apagam os sentidos laterais e os matizes; a página "perfeita" éa que consta desses delicados valores e que com mais facilidade se desgasta.Inversamente, a página que tem vocação de imortalidade pode atravessar ofogo das erratas, das versões aproximativas, das leituras distraídas, dasincompreensões, sem deixar sua alma na provação. Não se pode alterarimpunemente (assim o afirmam aqueles que restabelecem o seu texto) nenhumadas linhas fabricadas por Gôngora; o Quijote, porém, ganha batalhas póstumascontra seus tradutores e sobrevive a qualquer versão descuidada. Heine, quejamais o ouviu em espanhol, celebrou-o para sempre. Mais vivo que osansiosos artifícios verbais do estilista é o fantasma alemão, escandinavo ouindustânico do Quijote.Não gostaria que a moralidade desta comprovação fosse compreendida comodesespero ou niilismo. Tampouco desejo fomentar negligências, nem creio emuma virtude mística na frase obrusa e no epíteto grosseiro. Afirmo que aomissão voluntária desses dois ou três agrados menores — distrações ocularesda metáfora, auditivas do ritmo e surpreendedoras da interjeição ou ohipérbato — costumam provar-nos que a paixão do tema tratado manda noescritor, e isto é tudo. A aspereza de uma frase lhe é tão indiferente àgenuína literatura como a sua suavidade. A economia prosódica não é menosforasteira da arte que a caligrafia ou a ortografia, ou, ainda, a pontuação:certeza de que as origens judiciais da retórica e a musicalidade do cantonos ocultaram sempre. A equivocação favorita da literatura contemporânea é aênfase. Palavras definitivas, palavras que postulam sabedorias divinatóriasou angelicais ou, ainda, de uma firmeza mais que humana — único, nunca,sempre, tudo, perfeição, acabado — pertencem ao comércio habitual de todoescritor. Não pensam que falar demasiado de uma coisa revele maiorinabilidade do que não falar nada, e que a generalização e a intensificaçãodescuidadas possam traduzir uma pobreza que é sentida pelo leitor. Suasimprudências causam uma depreciação do idioma. Assim ocorre em francês, cujalocução Je suis navré muitas vezes quer dizer Não irei tomar chá com vocês,e cujo aimer foi rebaixado a gostar. Esse hábito hiperbólico do francês estápresente, também, em sua linguagem escrita; Paul Valéry, herói da lucidezque organiza, transcreve esquecíveis e esquecidas linhas de La Fontaine, eafirma nelas (contra alguém): ces plus beaux vers du monde (o mais bonitoverso do mundo, Variété, 84).Quero lembrar-me agora do futuro e não do passado. Já se pratica a leituraem silêncio, sintoma venturoso. Já existe o leitor mudo de versos. Dessacapacidade sigilosa a uma escritura puramente ideográfica — diretacomunicação de experiências, não de sons — há uma distância enorme, porémsempre menos dilatada que o futuro.Releio estas negações e penso: Ignoro se a música sabe desesperar da músicae o mármore do mármore, porém a literatura é uma arte que sabe profetizar otempo em que terá emudecido, enfurecer-se com a própria virtude eenamorar-se da própria dissolução e cortejar seu fim.(1930)

domingo

Acerca de mis cuentos

Por Jorge Luis Borges

Acaban de informarme que voy a hablar sobre mis cuentos. Ustedes quizás los conozcan mejor que yo, ya que yo los he escrito una vez y he tratado de olvidarlos, para no desanimarme he pasado a otros; en cambio tal vez alguno de ustedes haya leído algún cuento mío, digamos, un par de veces, cosa que no me ha ocurrido a mí. Pero creo que podemos hablar sobre mis cuentos, si les parece que merecen atención. Voy a tratar de recordar alguno y luego me gustaría conversar con ustedes que, posiblemente, o sin posiblemente, sin adverbio, pueden enseñarme muchas cosas, ya que yo no creo, contrariamente a la teoría de Edgar Allan Poe, que el arte, la operación de escribir, sea una operación intelectual. Yo creo que es mejor que el escritor intervenga lo menos posible en su obra. Esto puede parecer asombroso; sin embargo, no lo es, en todo caso se trata curiosamente de la doctrina clásica. Lo vemos en la primera línea -yo no sé griego- de la Iliada de Homero, que leemos en la versión tan censurada de Hermosilla: "Canta, Musa, la cólera de Aquiles". Es decir, Homero, o los griegos que llamamos Homero, sabía, sabían, que el poeta no es el cantor, que el poeta (el prosista, da lo mismo) es simplemente el amanuense de algo que ignora y que en su mitología se llamaba la Musa. En cambio los hebreos prefirieron hablar del espíritu, y nuestra psicología contemporánea, que no adolece de excesiva belleza, de la subconsciencia, el inconsciente colectivo, o algo así. Pero en fin, lo importante es el hecho de que el escritor es un amanuense, él recibe algo y trata de comunicarlo, lo que recibe no son exactamente ciertas palabras en un cierto orden, como querían los hebreos, que pensaban que cada sílaba del texto había sido prefijada. No, nosotros creemos en algo mucho más vago que eso, pero en cualquier caso en recibir algo.
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EL ZAHIR
Voy a tratar entonces de recordar un cuento mío. Estaba dudando mientras me traían y me acordé de un cuento que no sé si ustedes han leído; se llama El Zahir. Voy a recordar cómo llegué yo a la concepción de ese cuento. Uso la palabra «cuento» entre comillas ya que no sé si lo es o qué es, pero, en fin, el tema de los géneros es lo de menos. Croce creía que no hay géneros; yo creo que sí, que los hay en el sentido de que hay una expectativa en el lector. Si una persona lee un cuento, lo lee de un modo distinto de su modo de leer cuando busca un artículo en una enciclopedia o cuando lee una novela, o cuando lee un poema. Los textos pueden no ser distintos pero cambian según el lector, según la expectativa. Quien lee un cuento sabe o espera leer algo que lo distraiga de su vida cotidiana, que lo haga entrar en un mundo no diré fantástico -muy ambiciosa es la palabra- pero sí ligeramente distinto del mundo de las experiencias comunes. Ahora llego a El Zahir y, ya que estamos entre amigos, voy a contarles cómo se me ocurrió ese cuento. No recuerdo la fecha en la que escribí ese cuento, sé que yo era director de la Biblioteca Nacional, que está situada en el Sur de Buenos Aires, cerca de la iglesia de La Concepción; conozco bien ese barrio. Mi punto de partida fue una palabra, una palabra que usamos casi todos los días sin darnos cuenta de lo misterioso que hay en ella (salvo que todas las palabras son misteriosas): pensé en la palabra inolvidable, unforgetable en inglés. Me detuve, no sé por qué, ya que había oído esa palabra miles de veces, casi no pasa un día en que no la oiga; pensé qué raro sería si hubiera algo que realmente no pudiéramos olvidar. Qué raro sería si hubiera, en lo que llamamos realidad, una cosa, un objeto -¿por qué, no?- que fuera realmente inolvidable. Ese fue mi punto de partida, bastante abstracto y pobre; pensar en el posible sentido de esa palabra oída, leída, literalmente in-olvidable, inolvidable, unforgetable, unvergasselich, inouviable. Es una consideración bastante pobre, como ustedes han visto. Enseguida pensé que si hay algo inolvidable, ese algo debe ser común, ya que si tuviéramos una quimera por ejemplo, un monstruo con tres cabezas, (una cabeza creo que de cabra, otra de serpiente, otra creo que de perro, no estoy seguro), lo recordaríamos ciertamente. De modo que no habría ninguna gracia en un cuento con un minotauro, con una quimera, con un unicornio inolvidable; no, tenía que ser algo muy común. Al pensar en ese algo común pensé, creo que inmediatamente, en una moneda, ya que se acuñan miles y miles y miles de monedas todas exactamente iguales. Todas con la efigie de la libertad, o con un escudo o con ciertas palabras convencionales. Qué raro sería si hubiera una moneda, una moneda perdida entre esos millones de monedas, que fuera inolvidable. Y pensé en una moneda que ahora ha desaparecido, una moneda de veinte centavos, una moneda igual a las otras, igual a la moneda de cinco o a la de diez, un poco más grande; qué raro si entre los millones, literalmente, de monedas acuñadas por el Estado, por uno de los centenares de Estados, hubiera una que fuera inolvidable. De ahí surgió la idea: una inolvidable moneda de veinte centavos. No sé si existen aún, si los numismáticos las coleccionan, si tienen algún valor, pero en fin, no pensé en eso en aquel tiempo. Pensé en una moneda que para los fines de mi cuento tenía que ser inolvidable; es decir: una persona que la viera no podría pensar en otra cosa. Luego me encontré ante la segunda o tercera dificultad... he perdido la cuenta. ¿Por qué esa moneda iba a ser inolvidable? El lector no acepta la idea, yo tenía que preparar la inolvidabilidad de mi moneda y para eso convenía suponer un estado emocional en quien la ve, había que insinuar la locura, ya que el tema de mi cuento es un tema que se parece a la locura o a la obsesión. Entonces pensé, como pensó Edgar Allan Poe cuando escribió su justamente famoso poema El Cuervo, en la muerte hermosa. Poe se preguntó a quién podía impresionar la muerte de esa mujer, y dedujo que tenía que impresionarle a alguien que estuviese enamorado de ella. De ahí llegué a la idea de una mujer, de quien yo estoy enamorado, que muere, y yo estoy desesperado.
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UNA MUJER POCO MEMORABLE
En ese punto hubiera sido fácil, quizás demasiado fácil, que esa mujer fuera como la perdida Leonor de Poe. Pero no decidí mostrar a esa mujer de un modo satírico, mostrar el amor de quien no olvidará la moneda de veinte centavos como un poco ridículo; todos los amores lo son para quien los ve desde afuera. Entonces, en lugar de hablar de la belleza del love splendor, la convertí en una mujer bastante trivial, un poco ridícula, venida a menos, tampoco demasiado linda. Imaginé esa situación que se da muchas veces: un hombre enamorado de una mujer, que sabe por un lado que no puede vivir sin ella y al mismo tiempo sabe que esa mujer no es especialmente memorable, digamos, para su madre, para sus primas, para la mucama, para la costurera, para las amigas; sin embargo, para él, esa persona es única. Eso me lleva a otra idea, la idea de que quizás toda persona sea única, y que nosotros no veamos lo único de esa persona que habla en favor de ella. Yo he pensado alguna vez que esto se da en todo, si no fijémonos que en la Naturaleza, o en Dios (Deus sirve Natura, decía Spinoza) lo importante es la cantidad y no la calidad. Por qué no suponer entonces que hay algo, no sólo en cada ser humano sino en cada hoja, en cada hormiga, único, que por eso Dios o la Naturaleza crea millones de hormigas; aunque decir millones de hormigas es falso, no hay millones de hormigas, hay millones de seres muy diferentes, pero la diferencia es tan sutil que nosotros los vemos como iguales. Entonces, ¿qué es estar enamorado? Estar enamorado es percibir lo que de único hay en cada persona, eso único que no puede comunicarse salvo por medio de hipérboles o de metáforas. Entonces por qué no suponer que esa mujer, un poco ridícula para todos, poco ridícula para quien está enamorado de ella, esa mujer muere. Y luego tenemos el velorio. Yo elegí el lugar del velorio, elegí la esquina, pensé en la Iglesia de la Concepción, una iglesia no demasiado famosa ni demasiado patética, y luego al hombre que después del velorio va a tomar un guindado a un almacén. Paga, en el cambio le dan una moneda y él distingue en seguida que hay algo en ella -hice que fuera rayada para distinguirla de las otras. Él ve la moneda, está muy emocionado por la muerte de la mujer, pero al verla ya empieza a olvidarse de ella, empieza a pensar en la moneda. Ya tenemos el objeto mágico para el cuento. Luego vienen los subterfugios del narrador para librarse de esa que él sabe que es una obsesión. Hay diversos subterfugios: uno de ellos es perder la moneda. La lleva, entonces, a otro almacén que queda un poco lejos, la entrega en el cambio, trata de no fijarse en qué esquina está ese almacén, pero eso no sirve para nada porque él sigue pensando en la moneda. Luego llega a extremos un poco absurdos. Por ejemplo, compra una libra esterlina con San Jorge y el dragón, la examina con una lupa, trata de pensar en ella y olvidarse de la moneda de veinte centavos ya perdida para siempre, pero no logra hacerlo. Hacia el final del cuento el hombre va enloqueciendo pero piensa que esa misma obsesión puede salvarlo. Es decir, habrá un momento en el cual el universo habrá desaparecido, el universo será esa moneda de veinte centavos. Entonces él -aquí produje un pequeño efecto literario- él, Borges, estará loco, no sabrá que es Borges. Ya no será otra cosa que el espectador de esa perdida moneda inolvidable. Y concluí con esta frase debidamente literaria, es decir, falsa: "Quizás detrás de la moneda esté Dios". Es decir, si uno ve una sola cosa, esa cosa única es absoluta. Hay otros episodios que he olvidado, quizás alguno de ustedes los recuerde. Al final, él no puede dormir, sueña con la moneda, no puede leer, la moneda se interpone entre el texto y él casi no puede hablar sino de un modo mecánico, porque realmente está pensando en la moneda, así concluye el cuento.
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EL LIBRO DE ARENA
Bien, ese cuento pertenece a una serie de cuentos, en la que hay objetos mágicos que parecen preciosos al principio y luego son maldiciones, sucede que están cargados de horror. Recuerdo otro cuento que esencialmente es el mismo y que está en mi mejor libro, si es que yo puedo hablar de mejores libros, El libro de arena. Ya el título es mejor que El Zahir, creo que zahir quiere decir algo así como maravilloso, excepcional. En este caso, pensé antes que nada en el título: El libro de arena, un libro imposible, ya que no puede haber libros de arena, se disgregarían. Lo llamé El libro de arena porque consta de un número infinito de páginas. El libro tiene el número de la arena, o más que el presumible número de la arena. Un hombre adquiere ese libro y, como tiene un número infinito de páginas, no puede abrirse dos veces en la misma. Este libro podría haber sido un gran libro, de aspecto ilustre; pero la misma idea que me llevó a una moneda de veinte centavos en el primer cuento, me condujo a un libro mal impreso, con torpes ilustraciones y escrito en un idioma desconocido. Necesitaba eso para el prestigio del libro, y lo llamé Holy Writ -escritura sagrada-, la escritura sagrada de una religión desconocida. El hombre lo adquiere, piensa que tiene un libro único, pero luego advierte lo terrible de un libro sin primera página (ya que si hubiera una primera página habría una última). En cualquier parte en la que él abra el libro, habrá siempre algunas páginas entre aquélla en la que él abre y la tapa. El libro no tiene nada de particular, pero acaba por infundirle horror y él opta por perderlo y lo hace en la Biblioteca Nacional. Elegí ese lugar en especial porque conozco bien la Biblioteca. Así, tenemos el mismo argumento: un objeto mágico que realmente encierra horror. Pero antes yo había escrito otro cuento titulado "Tlön, Uqbar, Orbis Tertius". Tlön, no se sabe a qué idioma corresponde. Posiblemente a una lengua germánica. Uqbar surgiere algo arábigo, algo asiático. Y luego, dos palabras claramente latinas: Orbis Tertius, mundo tercero. La idea era distinta, la idea es la de un libro que modifique el mundo. Yo he sido siempre lector de enciclopedias, creo que es uno de los géneros literarios que prefiero porque de algún modo ofrece todo de manera sorprendente. Recuerdo que solía concurrir a la Biblioteca Nacional con mi padre; yo era demasiado tímido para pedir un libro, entonces sacaba un volumen de los anaqueles, lo abría y leía. Encontré una vieja edición de la Enciclopedia Británica, una edición muy superior a las actuales ya que estaba concebida como libro de lectura y no de consulta, era una serie de largas monografías. Recuerdo una noche especialmente afortunada en la que busqué el volumen que corresponde a la D-L, y leí un artículo sobre los druidas, antiguos sacerdotes de los celtas, que creían -según César- en la transmigración (puede haber un error de parte de César). Leí otro artículo sobre los Drusos del Asia Menor, que también creen en la transmigración. Luego pensé en un rasgo no indigno de Kafka: Dios sabe que esos Drusos son muy pocos, que los asedian sus vecinos, pero al mismo tiempo creen que hay una vasta población de Drusos en la China y creen, como los Druidas, en la transmigración. Eso lo encontré en aquella edición, creo que el año 1910, y luego en la de 1911 no encontré ese párrafo, que posiblemente soñé; aunque creo recordar aún la frase Chinese druses -Drusos Chinos- y un artículo sobre Dryden, que habla de toda la triste variedad del infierno, sobre el cual ha escrito un excelente libro el poeta Eliot; eso me fue dado en una noche. Y como siempre he sido lector de enciclopedias, reflexioné -esa reflexión es trivial también, pero no importa, para mí fue inspiradora- que las enciclopedias que yo había leído se refieren a nuestro planeta, a los otros, a los diversos idiomas, a sus diversas literaturas, a las diversas filosofías, a los diversos hechos que configuran lo que se llama el mundo físico. ¿Por qué no suponer una enciclopedia de un mundo imaginario?
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UNA ENCICLOPEDIA IMAGINARIA
Esa enciclopedia tendría el rigor que no tiene lo que llamamos realidad. Dijo Chesterton que es natural que lo real sea más extraño que lo imaginado, ya que lo imaginado procede de nosotros, mientras que lo real procede de una imaginación infinita, la de Dios. Bueno, vamos a suponer la enciclopedia de un mundo imaginario. Ese mundo imaginario, su historia, sus matemáticas, sus religiones, las herejías de esas religiones, sus lenguas, las gramáticas y filosofías de esas lenguas, todo, todo eso va a ser más ordenado, es decir, más aceptable para la imaginación que el mundo real en el que estamos tan perdidos, del que podemos pensar que es un laberinto, un caos. Podemos imaginar, entonces, la enciclopedia de ese mundo, o esos tres mundos que se llaman, en tres etapas sucesivas, Tlön, Uqbar, Orbis Tertius. No sé cuántos ejemplares eran, digamos treinta ejemplares de ese volumen que, leído y releído, acaba por suplantar la realidad; ya que la historia que narra es más aceptable que la historia real que no entendemos, su filosofía corresponde a la filosofía que podemos admitir fácilmente y comprender: el idealismo de Hume, de los hindúes, de Schopenhauer, de Berkley, de Spinoza. Supongamos que esa enciclopedia funde el mundo cotidiano y lo reemplaza. Entonces, una vez escrito el cuento, aquella misma idea de un objeto mágico que modifica la realidad lleva a una especie de locura; una vez escrito el cuento pensé: "¿qué es lo que realmente ha ocurrido?" Ya que, qué sería del mundo actual sin los diversos libros sagrados, sin los diversos libros de filosofía. Ese fue uno de los primeros cuentos que escribí. Ustedes observarán que esos tres cuentos de apariencia tan distinta, "Tlön, Uqbar; Orbis Tertius", "El Zahir" y "El libro de arena", son esencialmente el mismo: un objeto mágico intercalado en lo que se llama mundo real. Quizás piensen que yo haya elegido mal, quizás haya otros que les interesen más. Veamos por lo tanto otro cuento: "Utopía de un hombre que está cansado". Esa utopía de un hombre que está cansado es realmente mi utopía. Creo que adolecemos de muchos errores: uno de ellos es la fama. No hay ninguna razón para que un hombre sea famoso. Para ese cuento yo imagino una longevidad muy superior a la actual. Bernard Shaw creía que convendría vivir 300 años para llegar a ser adulto. Quizás la cifra sea escasa; no recuerdo cuál he fijado en ese cuento: lo escribí hace muchos años. Supongo primero un mundo que no esté parcelado en naciones como ahora, un mundo que haya llegado a un idioma común . Vacilé entre el esperanto u otro idioma neutral y luego pensé en el latín. Todos sentíamos la nostalgia del latín, las perdidas declinaciones, la brevedad del latín. Me acuerdo de una frase muy linda de Browning que habla de ello: «Latin, marble's lenguaje» -latín, idioma del mármol. Lo que se dice en latín parece, efectivamente, grabado en el mármol de un modo bastante lapidario. Pensé en un hombre que vive mucho tiempo, que llega a saber todo lo que quiere saber, que ha descubierto su especialidad y se dedica a ella, que sabe que los hombres y mujeres en su vida pueden ser innumerables, pero se retira a la soledad. Se dedica a su arte, que puede ser la ciencia o cualquiera de las artes actuales. En el cuento se trata de un pintor. Él vive solitariamente, pinta, sabe que es absurdo dejar una obra de arte a la realidad, ya que no hay ninguna razón para que cada uno sea su propio Velásquez, su propio Shakespeare, su propio Shopenhauer. Entonces llega un momento en el que desea destruir todo lo que ha hecho. Él no tiene nombre: los nombres sirven para distinguir a unos hombres de otros, pero él vive solo. Llega un momento en que cree que es conveniente morir. Se dirige a un pequeño establecimiento donde se administra el suicidio y quema toda su obra. No hay razón para que el pasado nos abrume, ya que cada uno puede y debe bastarse. Para que ese cuento fuese contado hacía falta una persona del presente; esa persona es el narrador. El hombre aquél le regala uno de sus cuadros al narrador, quien regresa al tiempo actual (creo que es contemporáneo nuestro). Aquí recordé dos hermosas fantasías, una de Wells y otra de Coleridge. La de Wells está en el cuento titulado "The Time Machine" -"La máquina del tiempo"-, donde el narrador viaja a un porvenir muy remoto, y de ese porvenir trae una flor, una flor marchita; al regresar él esa flor no ha florecido aún . La otra es una frase, una sentencia perdida de Coleridge que está en sus cuadernos, que no se publicaron nunca hasta después de su muerte y dice simplemente: "Si alguien atravesara el paraíso y le dieran como prueba de su pasaje por el paraíso una flor y se despertara con esa flor en la mano, entonces, ¿qué?" Eso es todo, yo concluí de ese modo: el hombre vuelve al presente y trae consigo un cuadro del porvenir, un cuadro que no ha sido pintado aún. Ese cuento es un cuento triste, como lo indica su título: Utopía de un hombre que está cansado.
02 Aug 2005
Biblioteca Digital Ciudad Seva
Advertencias de un escritor
de Gabriel García Márquez
Una cosa es una historia larga, y otra, una historia alargada. El final de un reportaje hay que escribirlo cuando vas por la mitad.
El autor recuerda más cómo termina un artículo que cómo empieza.
Es más fácil atrapar un conejo que un lector.
Hay que empezar con la voluntad de que aquello que escribimos va a ser lo mejor que se ha escrito nunca, porque luego siempre queda algo de esa voluntad.
Cuando uno se aburre escribiendo el lector se aburre leyendo.
No debemos obligar al lector a leer una frase de nuevo.

28 Oct 2005
Biblioteca Digital Ciudad Seva
16 consejos en literatura
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Jorge Luis Borges
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Adolfo Bioy Casares, en un numero especial de la revista francesa L’Herne, cuenta que, hace treinta años, Borges, él mismo y Silvina Ocampo proyectaron escribir a seis manos un relato ambientando en Francia y cuyo protagonista hubiera sido un joven escritor de provincias. El relato nunca fue escrito, pero de aquel esbozo ha quedado algo que pertenece al propio Borges: una irónica lista de dieciséis consejos acerca de lo que un escritor no debe poner nunca en sus libros.
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En literatura es preciso evitar:
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1. Las interpretaciones demasiado inconformistas de obras o de personajes famosos. Por ejemplo, describir la misoginia de Don Juan, etc.
2. Las parejas de personajes groseramente disímiles o contradictorios, como por ejemplo Don Quijote y Sancho Panza, Sherlock Holmes y Watson.
3. La costumbre de caracterizar a los personajes por sus manías, como hace, por ejemplo, Dickens.
4. En el desarrollo de la trama, el recurso a juegos extravagantes con el tiempo o con el espacio, como hacen Faulkner, Borges y Bioy Casares.
5. En las poesías, situaciones o personajes con los que pueda identificarse el lector.
6. Los personajes susceptibles de convertirse en mitos.
7. Las frases, las escenas intencionadamente ligadas a determinado lugar o a determinada época; o sea, el ambiente local.
8. La enumeración caótica.
9. Las metáforas en general, y en particular las metáforas visuales. Más concretamente aún, laS metáforas agrícolas, navales o bancarias. Ejemplo absolutamente desaconsejable: Proust.
10. El antropomorfismo.
11. La confección de novelas cuya trama argumental recuerde la de otro libro. Por ejemplo, el Ulysses de Joyce y la Odisea de Homero.
12. Escribir libros que parezcan menús, álbumes, itinerarios o conciertos.
13. Todo aquello que pueda ser ilustrado. Todo lo que pueda sugerir la idea de ser convertido en una película.
14. En los ensayos críticos, toda referencia histórica o biográfica. Evitar siempre las alusiones a la personalidad o a la vida privada de los autores estudiados. Sobre todo, evitar el psicoanálisis.
15. Las escenas domésticas en las novelas policíacas; las escenas dramáticas en los diálogos filosóficos.
Y, en fin:
16. Evitar la vanidad, la modestia, la pederastia, la ausencia de pederastia, el suicidio.
¿Todo cuento es un cuento chino?

De Gabriel García Márquez

Escribir una novela es pegar ladrillos. Escribir un cuento es vaciar en concreto. No sé de quién es esa frase certera. La he escuchado y repetido desde hace tanto tiempo sin que nadie la reclame, que a lo mejor termino creyendo que es mía. Hay otra comparación que es pariente pobre de la anterior: el cuento es una flecha en el centro del blanco y la novela es cazar conejos. En todo caso esta pregunta del lector ofrece una buena ocasión para dar vueltas una vez más, como siempre, sobre las diferencias de dos géneros literarios distintos y sin embargo confundibles. Una razón de eso puede ser el despiste de atribuirle las diferencias a la longitud del texto, con distinciones de géneros entre cuento corto y cuento largo. La diferencia es válida entre un cuento y otro, pero no entre cuento y novela. El cuento más corto que conozco es del guatemalteco Augusto Monterroso, reciente premio Príncipe de Asturias. Dice así: "Cuando despertó, el dinosaurio todavía estaba allí". Nada más. Hay otro de Las mil y una noches, cuyo texto no tengo a la mano, y que me produce retortijones de envidia. Es el cuento de un pescador que le pide prestado un plomo para su red a la mujer de otro pescador, con la promesa de regalarle a cambio el primer pescado que saque, y cuando ella lo recibe y lo abre para freírlo le encuentra en el estómago un diamante del tamaño de una almendra. Más que el cuento mismo, alucinante por su sencillez, éste me interesa ahora porque plantea otro de los misterios del género: si la que presta el plomo no fuera una mujer sino otro hombre, el cuento perdería su encanto: no existiría. ¿Por qué? ¡Quién sabe! Un misterio más de un género misterioso por excelencia. Las Novelas ejemplares de Cervantes son de veras ejemplares, pero algunas no son novelas. En cambio Joseph Conrad escribió Los duelistas, un cuento también ejemplar con más de ciento veinte páginas, que suele confundirse con una novela por su longitud. El director Ridley Scott lo convirtió en una película excelente sin alterar su identidad de cuento. Lo tonto a estas alturas sería preguntarnos si a Conrad le habría importado un pito que lo confundieran. La intensidad y la unidad interna son esenciales en un cuento y no tanto en la novela, que por fortuna tiene otros recursos para convencer. Por lo mismo, cuando uno acaba de leer un cuento puede imaginarse lo que se le ocurra del antes y el después, y todo eso seguirá siendo parte de la materia y la magia de lo que leyó. La novela, en cambio, debe llevar todo dentro. Podría decirse, sin tirar la toalla, que la diferencia en última instancia podría ser tan subjetiva como tantas bellezas de la vida real. Buenos ejemplos de cuentos compactos e intensos son dos joyas del género: "La pata de mono", de W.W. Jacobs, y "El hombre en la calle", de Georges Simenon. El cuento policíaco, en su mundo aparte, sobrevive sin ser invitado porque la mayoría de sus adictos se interesan más en la trama que en el misterio. Salvo en el muy antiguo y nunca superado Edipo rey, de Sófocles, un drama griego que tiene la unidad y la tensión de un cuento, en el cual el detective descubre que él mismo es el asesino de su padre. El cuento parece ser el género natural de la humanidad por su incorporación espontánea a la vida cotidiana. Tal vez lo inventó sin saberlo el primer hombre de las cavernas que salió a cazar una tarde y no regresó hasta el día siguiente con la excusa de haber un combate a muerte con una fiera enloquecida por el hambre. cambio, lo que hizo su mujer cuando se dio cuenta de que el de su hombre no era más que un cuento chino pudo ser la primera quizás la novela más larga del siglo de piedra. No sé qué decir sobre la suposición de que el cuento sea una de refresco entre dos novelas, pero podría ser una teórica que nada tiene que ver con mis experiencias de escritor.Tanteando en las tinieblas me atrevería a pensar que no son los escritores que han intentado los dos géneros al mismo tiempo y no muchas veces con la misma fortuna en ambos. Es el caso de Somerset Maugham, cuyas obras -como las de Hemingway- son conocidas por el cine. Entre sus cuentos numerosos no se olvidar "P&O" -siglas de la compañía de navegación Pacific Orient- que es el drama terrible y patético de un rico colono que muere de un hipo implacable en mitad del océano Índico. Ernest Hemingway es un caso similar. Tan conocido por el cine por sus libros, podría quedarse en la historia de la literatura por algunos cuentos magistrales. Estudiando su vida se piensa que vocación y su talento verdaderos fueron para el cuento corto. mejores, para mi gusto, no son los más apreciados ni los más largosAl contrario, dos de ellos son de los más cortos -"Un canario regalo" y "Un gato bajo la lluvia"-, y el tercero, largo consagratorio, "La breve vida feliz de Francis MacomberSobre la otra suposición de que el cuento puede ser un género práctica para emprender una novela, confieso que lo hice y no me mal para aprender a escribir El otoño del patriarca. Tenía la atascada en la fórmula tradicional de Cien años de soledad, en que había trabajado sin levantar cabeza durante dos años. Todo que trataba de escribir me salía igual y no lograba evolucionar un libro distinto. Sin embargo, el mundo del dictador eterno resuelto y escrito con el estilo juicioso de los libros anterioreshabrían sido no menos de dos mil páginas de rollos indigestos inútiles. Así que decidí buscar a cualquier riesgo una comprimida que me sacara de la trampa académica para invitar lector a una aventura nueva.Creí haber encontrado la solución a través de una serie de apuntes ideas de cuentos aplazados, que sometí sin el menor pudor a clase de arbitrariedades formales hasta encontrar la que para el nuevo libro. Son cuentos experimentales que trabajé más un año y se publicaron después con vida propia en el libro de cándida Eréndira: "Blacamán el bueno vendedor de milagros", "último viaje del buque fantasma", que es una sola frase sin puntuación que las mínimas comas para respirar, y otros que pasaron el examen y duermen el sueño de los justos en el cajón de basura. Así encontré el embrión de El otoño..., que es una rusa de experimentos copiados de otros escritores malos o buenos siglo pasado. Frases que habrían exigido decenas de páginas resueltas en dos o tres para decir lo mismo, saltando matonesmediante la violación consciente de los códigos parsimoniosos y gramática dictatorial de las academias. El libro, de salida, fue un desastre comercial. Muchos fieles de Cien años... se sintieron defraudados y pretendían que librero les devolviera la plata. Para colmo de peras en el olmo edición española se desbarataba en las manos por un defecto fábrica, y un amigo me consoló con un buen chiste: "Leí el hoja por hoja". Muchos persistieron en la lectura, otros la a medias y con el tiempo quedaron suficientes cautivos para que no me diera pena seguir en el oficio. Hoy es mi libro más en universidades de diversos países, y las nuevas pueden leerlo como si fuera el crepúsculo de un Tarzán de años. Si alguien protesta y lo tira por la ventana es porque no gusta pero no porque no lo entienda. Y a veces, por fortuna, no faltado alguien que lo recoja del suelo.